novembro 27, 2004

Ainda 3

Não dá para continuar a rebater o Juraan Vink, ele mesmo se rebate no comentário já citado abaixo. Podia aduzir que se Camões invocava o passado era porque o tinha interiorizado bastante cedo (logo em Ceuta, pelo menos, alargando-se longamente pelas paragens que a sua incomparável poesia nos diz), se Pessoa adoptou heterónimos não foi por pose (aonde nos levaria isto? A largas e não menos chatas teses que vão desde o desdobramento esquizofrénico da personalidade à necessidade de justificar estilos poéticos tão diversamente exigidos a si mesmo, Pessoa, de permeio com tudo o que falta e já foi dito), que o pós-modernismo não é nenhuma escola e, se tanto, em poesia, querem alguns que seja algo que abusivamente se traduz num tom monocórdico infeliz ou alegremente banal, é escusado citar poetas pátrios, todos os sabemos; que os críticos em geral nunca deixaram de ser críticos e que não devemos temê-los nem, enquanto escrevemos, olhar para eles, tal como para o leitor, senão passamos a vida a fazer rodriguinhos de moda; que, a meu ver, devemos ter a devida cautela e independência face a clubes privados de poetas e aspirantes, ainda por cima num tempo sem vanguardas, em que a única vanguarda é ou pode ser contestar este próprio tempo e os seus tiques; que, em minha opinião, ser abjeccionista pode e deve ser precisamente isso, a denúncia e a revolta face a uma época que nos oprime de todos os modos, até esteticamente (nunca pensou nisso, Juraan?), e nunca lamentar-nos no seu ombro ou dançar o corridinho à sua moda, o que é exactamente o mesmo.

Publicado por mb em 07:23 PM | Comentários (1)

novembro 25, 2004

AINDA 2

O que li no segundo comentário de Juraan Vink tirou-me toda a vontade de polemizar, coisa que me dá bastante prazer, mas assim não há desalmado que o faça, senão aqueles poseurs contra quem sempre me insurjo. Baixo portanto o registo, e escrevo o que penso para fixar melhor as minhas ideias, é meu costume dizer isto para que não se confunda com o que verbero, a pose, sobretudo a pose em poesia e ao redor dela, ou em qualquer arte, que outras poses na vida não me tocam, cada um está no mundo como quer, dando-se conta ou não de que está nele. Mas agora tenho de ir trabalhar, ficando-me no pensamento que pose poética, entre outras coisas mais, é ser-se intelectualmente desonesto, é dizer em poesia aquilo que não se sente no pensamento ou não se indaga o que se está a sentir, fingindo que se pensa ou sente. O mal da pose em poesia é que se dá facilmente por ela. Nada disto tem a ver com o poema Autopsicografia de Pessoa, o de "O poeta é um fingidor", quanto a mim muitas vezes mal entendido. Agora tenho de ir ao pão-nosso. Volto.

Publicado por mb em 09:01 AM | Comentários (0)

novembro 23, 2004

Ainda

Claro que o bom gosto e o mau gosto se discutem, estou de acordo consigo, mas tolo é quem o faz em termos de Benfica-Porto, fora deste espírito não duvido disso. Já duvido do bom gosto quando se aduzem razões que pouco ou nada argumentam a favor da dama por quem tão inopinadamente se sai a terreiro, como se a tivessem estuprado, e não apenas ter-se exprimido uma opinião quanto à qualidade poética de um livro, o tal Beau Séjour de Manuel de Freitas, de facto très peu beau. E sublinho a minha concordância em que os gostos se discutem, não para fugir à armadilhada classificação em que parece meter-me quando diz-que-“diz a populaça que gostos não se discutem”. De facto os gostos discutem-se, e o mais discutível de todos é o mau gosto.

Ao contrário da palavra populaça que, com toda a eficácia, o situa numa torre, os argumentos que usou não argumentam nada contra o meu mau gosto, deixando em contrapartida, aberta uma defesa para que, pelo menos, se sopese o seu bom gosto e a sua capacidade de discernir qualidades poéticas.

Começa com a defesa do livro – da restante obra não posso falar, não a conheço – com um daqueles argumentos que usávamos em miúdos, ou seja, um argumento-porque-sim: “Ainda hoje não consigo entender por que motivo tal poesia inspira tanto sentimento contraditório. Algum valor terá, para que isso aconteça.”

E não posso deixar de sorrir-me deste lado com essa sua fé lugar-comum de onde há fumo há fogo, quando pode ser uma mera reacção quimíca, ou o vapor da água a ferver de alguma indignação mais apaixonada, ou apenas nada, ou seja, o barulho afirmativo de quem sonha vanguardas como D. Quixote sonhava gigantes.

Também não deixa de ser sintomática a sua defesa, ao chamar a si a companhia de Eduardo Prado Coelho (EPC) e pô-lo a falar pela sua boca. Quem não conhece as suas resenhas? Quantas vezes não diz ele coisas de igual género a respeito de um livro que, depois, se torna um débil plof num animado lago cheio de rãs? Cometi duas vezes o erro de ir por ele e à terceira já não fui. Parvo seria. Por outros vou, nomeadamente por blogues, e um deles é o seu. Quanto a EPC, estou farto dos opinion makers da economia pós-moderna, ele que vem, com grande poder mimético, de muitos lados, incluído daquilo a que, politicamente, chamaria modernismo. E, ao ler agora no Universos Desfeitos o que ele escreveu, recorda-me, com indignação, do que é hoje a prática política dos que nos governam, a nós e ao mundo, já não com meias-verdades, não são mais precisas, mas com embustes descarados, de tal modo que para sabermos algo do que se passa temos de traduzir-lhes as intenções por antónimos.

E é o que se passa precisamente aqui: “Impressiona-nos o ritmo, a cadência de quem se move segundo o movimento do próprio olhar, um estilo de cinematógrafo projectando imagens sobre um lençol branco, (...)” Como podemos impressionar-nos com o ritmo e a cadência, se é o que precisamente não existe? Que movimento de olhar, que imagens cinematográficas, quando o que há são descrições de narrativa pura e simples, quantas vezes rudimentar, quantas vezes de mau gosto e, mais uma vez, sem lhe apetecer falar, sem ter nada para dizer, senão vulgaridades?

Vejamos a seguir o artifício com que EPC procura lavar as mãos de desagrados e desagravos futuros, intrometendo um discreto quase que, se não o pusesse, traduziria o que qualquer leitor, não fundamentalista e amante de poesia boa, sentirá ao lê-lo: “num tipo de escrita que muitas vezes quase resvala para a prosa, para a alusão banal, para o pormenor narrativo (...)” Por fim endeusa a promessa, com a bênção de dois ou três clichés que a tudo servem. Por exemplo, rio-me com este, de duplo significado: “pelos cortes inesperados”. Um dos significados, se é dos versos que EPC fala, é o contrário que se verifica, os cortes que fui ver são frouxos, traduzirão, penso, cavalgamentos casuais; se é das composições, é de alguma falta de unidade que aqui e além se nota.

Estou certo de que EPC não escreveria assim, se atitudes destas fossem passíveis de a DECO as aceitar divulgar com os protestos dos consumidores lesados. Mas é o que Sr. Eduardo Prado Coelho pensa, diria o mais estagiário dos estagiários de Direito no escritório de um amigo meu, cuja linearidade de raciocínio às vezes nos diverte.

Voltarei, para lhe responder ao resto, à pose, às memórias, ao telhado do pós-modernismo, ao respeitinho aos críticos, a Camões e a Pessoa, claro, etc. e por aí espero ficar, que este assunto toma a ambos muito tempo e, como Vc disse, vai com “desenvolvimentos que, a meu ver, nem merece”.

Creia-me, entretanto, um fiel cliente do seu blogue onde, veja lá, acabei de ler um poema seu que vem ao arrepio do que no Beau Séjour defende. Nem de propósito - apetecia-me pôr aqui um emoticon a sorrir, se não tivesse de afivelar o ar de catedrático que não sou.

Publicado por mb em 07:29 PM | Comentários (3)

novembro 20, 2004

Para ler até ao fim

De resto, a partir da terceira estrofe, quem gostar de poesia já lhe será difícil parar. O poema vai todo ele ligado ao blogue do autor: é um dos tais poemas que só poderia ter sido escrito por quem o fez. Isto pode parecer uma verdade do senhor de La Palisse, mas não é. Felizmente.

Dia a dia

Parte I

havia um banco
no jardim da cidade inclinada sobre o rio
no qual me costumava sentar para recuperar o fôlego
havia um banco a meio caminho da grande subida para o Instituto
abrigado pelas árvores cujos nomes nunca soube
e cujas copas se agitavam muito quando estava vento
e me serviam de abrigo nas tardes de chuva

havia também uma voz
quando subia a primeira metade da ladeira para o Instituto
que surgia das profundezas e me perguntava
mas o que é isto?
e eu atrasado para o trabalho ia respondendo diariamente num gaguejo intelectual
é o nosso mundo pós pós moderno
sem me aperceber que estava cansado de quilómetros e de vozes
mas o jardim era talvez um refúgio o banco uma tábua de salvação
e eu sabia que ali à noite se prostituíam à noite roubavam carteiras
mas isso não era importante porque à noite não me sentava para descansar
à noite descia mais apressado ainda tomava balanço
e as pernas não me doíam tanto o cérebro estava um pouco mais adormecido
o trajecto descendente tem um efeito curioso sobre a orgânica sonâmbula
dos corpos
fazia-o numa corrida alucinante

numa corrida alucinante
para não perder o metro para não perder o comboio para não chegar
atrasado a casa e não ter de fazer o jantar tarde demais porque ainda havia
que aproveitar um pouco de tempo para estudar para me sobrarem
alguns momentos para a escrita de pequenos poemas sem muito conteúdo
mas que me davam uma alegria efémera e não podia
deitar-me muito tarde porque acordava
muito cedo era preciso ir à Faculdade aprender coisas
sobre a Arte e sobre a Vida para compreender o porquê de fazer todos os dias
o mesmo trajecto e tirar verdadeiramente algum sentido disso
porque havia dinheiro
em jogo
há sempre dinheiro em jogo
e o futuro intermitente a sorrir com promessas de menos cansaço
talvez mais transpiração
e era por isso que corria

corria
e era no banco do jardim que recuperava o fôlego dos dias
e meditava um pouco sobre o universo e as utopias e tossia muito
e pensava que andava a fumar demasiados cigarros e que o vinho em excesso
não me fazia assim tão bem

algo estava mal
porque apesar do impulso e da promessa do futuro sentia-me
em declínio algo não batia certo neste espectáculo de fantoches
seria eu? que nunca tinha passado de um atleta
medíocre e a quem obrigavam agora a percorrer uma maratona sem fim visível
quem me obrigava?

a esta hora no topo da grande subida numa habitação contígua ao Instituto
e não importa se é Verão ou Inverno
um rapaz pega na sua prancha de surf abre a porta da rua atravessa a estrada
e entra num carro onde outro rapaz o espera
estamos a meio do dia
estamos inevitavelmente a meio do dia

já os tenho visto
quando me é impossível sentar no banco do jardim
e ganho perco algum tempo
o carro é talvez topo de gama não sei nunca me dei ao trabalho
de memorizar cilindradas ou iniciais é um mercedes e é enorme eu nunca
andei de mercedes nem fiz surf invejo aquela liberdade social nascemos
com organismos e sonhos tão semelhantes e logo nos dão rumos e estatutos tão desiguais
mas existe um cérebro um intelecto com poder para mudar o meio e que por vezes
ignora o facto de estarmos rodeados de elementos preciosos
carbono hidrogénio oxigénio
que nos possibilitam existir
ignora o facto de termos à disposição utensílio extraordinários
o acorde de Sol o valor de Pi o Esperanto
que nos possibilitam continuar a sonhar.

os dois rapazes vão fazer surf
e por certo se orgulham de possuírem um mercedes
o máximo que fiz e do qual me orgulho foi preencher um impresso
para poder aprender coisas sobre a Arte e sobre a Vida os dois rapazes
entram no carro e partem numa velocidade estonteante uma velocidade muito maior
do que alguma vez as minhas pernas serão capazes de acompanhar um deles
tem um brinco negro saliente

para aprender coisas sobre a Arte e sobre a Vida
deixei de usar brinco troquei-o pela gravata e pelo corte de cabelo
mais curto no mundo empresarial ninguém acredita na moralidade
dos que destoam do resto da paisagem humana é necessária uma aparência
formal diz a Empresa ninguém confia num indivíduo de cabelo comprido
e brinco é preciso ser muito
artificial
dizer como está hoje bom fim-de-semana igualmente obrigado eu digo todas
estas coisas com prazer e sinceridade mas a gravata e o corte de cabelo
fazem-me senti-las falsas se o Dalai Lama não se vestisse como veste
continuaria a ser o Dalai Lama a considerar todos os seres vivos
sagrados e o governo chinês continuaria a condená-lo

mas a Empresa não me diz isto
porque os Grandes Chefes decidiram atribuir-me um uniforme
e uma forma de pensar que são demasiado apertados não sou o Dalai Lama
e quando ajeito a camisa para dentro das calças fico com a impressão de que
nada disto se me ajusta tenho amigos
tenho amigos e eles quase sabem aquilo que quero dizer aquilo que odeio
gosto de os ouvir falar de mulheres bonitas de poesia já calhou
falarmos de Carl Sagan e extraterrestres eles próprios se sentem apertados
já calhou falarmos de nós por detrás das gravatas e dos uniformes

é bom

ver um filme ou ouvir uma música
sentir que quem nos acompanha nesses instantes partilha os mesmos
sentimentos derrama lágrimas nas mesmas cenas interioriza interpreta
a cadência os compassos sem que seja preciso fragmentar explicar teorizar
porque não se teorizam fragmentam explicam estas coisas

é bom
sentir
e tão difícil de acontecer

mas
é
por
isso
que
acredito

e continuo sempre em correria

a correr
para não perder o metro para não perder o comboio para não chegar
atrasado a casa e não ter de fazer o jantar tarde demais porque ainda há
que aproveitar um pouco de tempo para estudar para me sobrarem
alguns momentos para a escrita de pequenos poemas sem muito conteúdo
mas que me dão uma alegria efémera e não posso
deitar-me muito tarde porque acordo
muito cedo é preciso ir à Faculdade aprender coisas
sobre a Arte e sobre a Vida para compreender o porquê de fazer todos os dias
o mesmo trajecto e tirar verdadeiramente algum sentido disso

e quando
chego a meio caminho da Grande Subida
e alguém se encontra sentado no meu banco apetece-me gritar ser violento perder
a paciência acto lunático de um jovem sobre pressão a mente distorcida
de um estudante de línguas diriam sem compreenderem que para mim
o maior crime é o de invadirem o meu espaço sagrado onde a breve sensação
de equilíbrio se vai manifestando porque quando ocupam o banco eu não paro

e continuo a correr

a correr
com o risco iminente de um ataque cardíaco
ou pior
esquecer-me desistir da Arte
da Beleza porque sem a noção de equilíbrio o ser humano fica esquisito
pensa somente em economia ou em filosofia é parcial não reconhece
a dualidade necessária à existência transforma-se definitivamente
num sobrevivente eu não queria nunca ver só de um ângulo e por isso
precisava tanto daqueles dois ou três minutos no banco do jardim
da cidade inclinada sobre o rio.

Astrhophil

Publicado por mb em 07:28 PM | Comentários (2)

novembro 15, 2004

Sobre um Comentário

Caro Juraan Vink, acabei de chegar e ainda por cima deixei o Beau Séjour no escritório do trabalho, enfim não lhe faz mal nenhum passar lá a noite, mas faz-me aqui falta. Lembro-me de que é um livro de memórias, coisa que me estranha havê-la tanta que se escreva um livro desses, digamos de poesia, com a idade de 31 anos. Já Pedro Mexia, aos 28, cai no mesmo com o livro Em Memória, embora revelando já então um muito mais perfeito domínio das palavras, do verso e do poema, e uma notoriamente maior amplidão poética, optando ambos por um discurso aberto, donde as comparações que estou a fazer me parecem legítimas.

E estranho, porque das duas, uma: ou Manuel de Freitas se inspirou no tema do Em Memória, ou é moda e os novos poetas ou candidatos desatam a escrever sobre o passado como se tivessem de repente envelhecido para o dobro da idade, dobro é uma maneira de dizer, mas há um tempo para tudo, e para lembrar tão aturadamente o pretérito :) não é aos trinta anos, temos de concordar. Donde me ressalta que aquelas lembranças tão persistentemente escritas são pose, muito mais em Manuel de Freitas do que em Pedro Mexia, o qual, embora também ceda à pose, o faz à sombra de uma escrita exigente e rigorosa, precisamente o inverso de Manuel de Freitas que desbobina, é o termo, palavras sem vontade nenhuma de as escrever, e em poesia tudo se nota, a falta de habilidade (leia-se jeito), de sinceridade intelectual, para não empregar outro nome abstracto, as pessoas podem estar honestamente convencidas de que estão certas, e se para elas o estão, então está tudo certo, menos para quem não concorde e lhe chame desacerto.

Como disse, não tenho aqui o livro, mas os versos de muitas das composições são pobres, tão pobres que estendidos como prosa resultariam mesmo numa prosa baça. Não me admira que já tenha editado tanto, ao que venho lendo. Não há nada que resista a tamanha proliferidade, muito menos o juízo auto-crítico. Vais ver que é por causa daquela tertúlia do Expresso.

No mais não me ralo com o diz-que-diz da maralha à sombra da Betesga, e sobre casos destes costumo pensar que cada um escreve como pode e a mais não é obrigado. Bastava que o Beau Séjour tivesse um poema como esse aí em baixo para eu dar por bem empregue o dinheiro gasto.

Publicado por mb em 10:47 PM | Comentários (3)

Surpreendeu-me este poema fascinante,
escrito num teclado sem acentos
ou talvez a fazer de conta que não os tinha

EM LOUVOR DA CIDADE DE A., AA NOITE

Ha no mundo
um sitio de grande amenidade,
que o diga Spinoza,
onde aa noite as mulheres passam,
velozes,
e trazem o alto peito
iluminado.

Assina Luis, do A Natureza do Mal

Publicado por mb em 08:59 PM | Comentários (0)

novembro 14, 2004

Ontem Criei uma Sopa de Comer e chorar por mais

Sopa de Mexilhão

Para quatro pessoas:

Mexilhões frescos: - 1 kg
Vermicelli (massa...) - 1 mão bem cheia por pessoa.
Tomate maduro médio - 1
Alho francês - 1
Cebola média grosseiramente picada - 1
Pimento vermelho tamanho normal (ou verde na falta daquele) - 2/3
Dente de alho grande - 1
Salsa - 6 pés.
Pimenta preta em grão - 1 colher de café.
Corante alimentar amarelo, líquido ou em pó (*) - q.b.
Azeite - q.b.
Água - suficiente para 1,2 litros de caldo.

Abra os mexilhões com um fundo de água, em lume vivo e num tacho tapado. Deixe arrefecê-los um pouco, tire-os das cascas, ponha-os de lado, meça e reserve a água que largaram e as quatro cascas mais bonitas.

Estufe num tacho tapado, lentamente, por mais de uma hora, no meu caso esteve duas, com o lume no mínimo e com um gole de água e azeite, o tomate e o alho francês cortados em rodelas, a cebola como se disse, o pimento em tiras, , um pouco de sal, o alho meio esmagado.

Truque: uma maneira fácil de tirar a casca aos dentes de alho, e meio esmagá-los se quiser, é colocar o dente de alho sob a lâmina deitada de uma faca mais ou menos larga, e dar uma punhada na lámina assim disposta, no sítio onde está o dito dente. É só retirar a casca sem mais arrelias. Se não sabia este truque, não se corte e agradeça-mo, que lhe poupei uma chatice que lhe ia talvez durar a vida toda :)]

No fim de estufado, deite-lhe água, mas não tanta que a soma da dos mexilhões e da que deita ultrapasse o 1,2 L já dito. Deixe ferver cinco minutos em lume médio. Coe o caldo resultante num passador chinês (à falta dele, noutro coador qualquer de malha fina), esgote-o totalmente, pressionando o estufado com um colher. Junte à água dos mexilhões, meça e complete com água o 1,2 L .

Outro truque: Lembre-se desta medida: um prato de sopa não alarvemente cheio leva 0,3 L, ou 3 dl, ou ainda 300 ml ou cm3, isto para quem se esqueceu da conversão das medidas que se aprendeu quase no pré-escolar.

Ponha então o caldo numa panela limpa, leve ao lume para levantar fervura, corrija de sal. Deite o vermicelli, junte um pouco de corante, e deixe cozer 4 minutos com o testo posto. Desligue. Junte os mexilhões descascados. Sirva nos pratos, dividindo a sopa como para irmãos, cada um com sua casca posta no fim, assim como uma pitada de salsa bem picada sobre a sopa, só para dar contraste à cor, que os olhos também comem (dizem).

(*) Não se ourice com o corante. Os bolos muito amarelinhos que vê na sua confeitaria ou café, os cremes, a paella que peça em Espanha ou fora dela, a fideua, etc. tudo tem esse corante, e não os caros estames de açafrão por que pode naturalmente optar.

Publicado por mb em 12:04 PM | Comentários (2)

novembro 13, 2004

Longa vida a um blogue

A 1 minuto de acabar o dia, às 11:59 PM cronométricas, num S.Martinho com o seu verão mais persistente do que é costume, sem castanhas nem jeropiga, e sem irmos à adega provar o vinho, o Nocturno com Gatos anunciou que fez um ano. Se escapou das castanhas, das nozes, da jeropiga e da prova do vinho, não escapa dos parabéns a você e da prenda de aniversário, a imagem que deixo do óleo sobre tela Solitude, de Paul Delvaux, pintado em 1955. Que cumpra a esperança máxima de vida dos blogues. Seria uma perda deixarem de ler-se na blogoesfera poemas como este e este e este e este e este e este e este e este, e tantos. O melhor é ir-se à procura deles.

Publicado por mb em 02:11 AM | Comentários (1)

novembro 11, 2004

Nós por cá todos bem

Depois de ter lido o livro de versos de Manuel de Freitas, Beau de Séjour, que não aconselho, meti o pé na poça com O Mundo Clamoroso, Ainda, de Manuel Resende que escreve na blogoefera. Antes destes precalços, tinha-me saído a contento Eliot e Outras Observações, de Pedro Mexia, e agora redimo-me daquelas duas compras com a poesia segura e sóbria de António Franco Alexandre, em Aracne, de que Juraan Vink fala hoje no Universos Desfeitos.

Se mo perguntarem, posso dissertar longamente sobre os motivos do desagrado que os dois livros me causaram. Mas antes têm de os ler. Do primeiro, uma das coisas que direi é que é de uma banalidade primária e tão confrangedora que custa ler aquelas palavras dispostas em verso; do segundo, que esperava do tradutor de Louvada Seja muitíssimo mais do que clichés de vanguardismos passados, bastante anteriores à sua geração (n. 1948) e à data de publicação do seu primeiro livro, em 1983.

Talvez esta entrada do Esplanar ajude a compreender o meu desagrado como comprador de livros de poesia: com o dinheiro que gastei neles, compraria outros que estava para levar e talvez a sorte me tivesse sorrido em outros poemas, o que não seria difícil.

Publicado por mb em 12:35 AM | Comentários (1)

novembro 10, 2004

Poesia versus prosa

O Inventário está parado não porque falte motivo. É que no trabalho não se escrevem versos, ou não devem escrever-se, senão estaremos a vender gato por lebre, sobretudo quando o trabalho que se vende é civet de lebre, bem bom o estufado em vinho tinto, um dia destes dou a receita. Mesmo assim escrevi estes versos com que me preparava para vender gato, isto é, fazer mais uma parte do Inventário (que está longe do fim):

A nascente do rio é uma abstracção
mais vasta que a memória

Queria com isto dizer que o fluir do rio, o Rio Douro nas imagens ao lado, ultrapassa o tempo, o nosso tempo, o único tempo que na realidade existe, o presente de olhar as águas nas imagens, para o imaginarmos abstractamente eterno, a montante e a juzante da nossa vida, ou seja, antes de nascermos e depois de morrermos.

Quantas palavras para exprimir em prosa uma ideia-sentimento. O encanto e o vício de escrever poesia também passa pelo exercício de uma linguagem ao mesmo tempo muito mais ampla e condensadora do que a prosa.

Publicado por mb em 07:21 PM | Comentários (0)

Negação

Os algarismos esvaziam a cabeça. Os algarismos são o contrário das letras. As contas nos programas informáticos são o inverso dos poemas no Word. A gestão dos números é consumir o tempo entre muros brancos de gelo. Quem já se descobriu mortal, sabe, com os números, que vai a alta velocidade num tabogan, sem ver nada senão aqueles muros e em direcção ao fim mais absurdo — a morte sem amar a vida. E tanto mais absurdo quanto mais quis amá-la.

Publicado por mb em 06:32 PM | Comentários (0)

novembro 08, 2004

Num comentário

A Zazie da Janela Indiscreta parece ter ficado aborrecida por eu ter escrito que o blogue em que colaborou era de scan paste. Como se isto fosse uma falta e não, no presente caso, uma virtude, a virtude saber escolher imagens e textos com o bom gosto que sabemos dos seus colaboradores (bom gosto derivado naturalmente da cultura). Foi mais ou menos isto que disse nesta entrada, reafirmando e precisando que o Janela Indiscreta era muito maioiritariamente e com toda a honra, um blogue de scan paste.

Publicado por mb em 10:46 PM | Comentários (3)

novembro 06, 2004

Descobertas

No Dicionário Pessoal uma poesia serena e funda, a que hoje encontrei. Poesia de sentir o pensamento, poesia que se descreve por situações, clara, não críptica (a poesia deve ter começado finalmente a andar farta de ouvir o maço e o cinzel dos hermeneutas, barulho contra o qual já protestava Jorge de Sena), numa espécie de imagética de discurso, se é que assim posso falar, já que se forma sobretudo de palavras da realidade interior, embora também recorra neste e mais noutros poemas a imagens da realidade exterior, como sucede no pema de hoje, 6.11, "No ritmo dos domingos / com os olhos magoados das poucas horas de sono" Empatia imediata, no meu caso, e a alegria de que falo aqui.

Isto que fiz sobre a glória...

Isto que fiz sobre a glória
de um desígnio e factos passados,
sobre uma arte, definição e termo
de uma forma ausente

Suporta a hora solitária
de uma fase, um projecto,
em que escrever se faz um modo
de litígio.

Sinónimo propositado, ser
um reflexo que comigo se mistura
como a sombra com o silêncio.

De coração junto ao soalho,
deixo os versos sem risco
em páginas limpas, escritas
à primeira - tanta vez.

Amar para dentro.
Amar para desistir.
E dizer que a razão de um
é a mesma que o amor do outro.

Uma escalada de perspectivas,
onde a casa vazia não é contradição
nem na pele as marcas de uns lábios de cereja,
a mitigância.

Os gestos inscritos perduram sobre essa indiferença,
não procuram a felicidade, quando já nada importa.
Ouço e reconto a história que me aguenta,
um nome a mais que da sorte oferece um novo silêncio
que a cada amanhã é amor.

Rui Miguel Ribeiro

Publicado por mb em 09:53 PM | Comentários (1)

novembro 05, 2004

Thé à la Menthe

Por chávena (caneca ou copo, melhor dizendo):

200 ml de água a ferver
1 saqueta de chá verde ou uma colher de chá dele bem cheia.
Hortelã fresca - 4 ou 5 bons ramos postos na caneca ou no copo.
acúcar q.b. dissolvido no chá, quando pronto.

Deite o chá na caneca ou copo com a hortelã e beberrique, devagar, meditando docemente sobre a vida.

Publicado por mb em 01:30 PM | Comentários (1)

Nota sobre o Inventário em processo de construção

Depois de terminado o Inventário, este será montado com as partes que o comporão, como num filme ou num livro de poemas, seguindo uma sequência diferente da agora numerada, que é a cronológica. Terá então outra numeração. Estas partes seriam poemas (como independentemente são), se não houvesse a ideia central de construção de um poema maior, que é a enumeração das coisas que cercam a vida de um homem no seu confinado escritório e sobre as quais medita e discorre.

Publicado por mb em 01:18 PM | Comentários (1)

novembro 04, 2004

Símbolos

Arafat, fosse ou não o que dizem que era (dos dois lados da barricada), é um dos símbolos de um mundo em vias de extinção. Não que o poder de revolta se extinga nos povos e que as lutas de libertação não sejam um atributo, natural mesmo, das sociedades humanas. Isso era o que os senhores do mundo dizem e gostam de ouvir dizer. O que se extingue com os últimos símbolos é um tempo romântico que moveu meia humanidade.

Publicado por mb em 10:06 PM | Comentários (0)

Baixa na blogoesfera

A Janela Indiscreta fechou as portadas. Era um blogue de scan paste que primava pela qualidade das escolhas e pela informação cultural que dispensava, por vezes difícil de obter a quem não fosse, por nascimento ou adopção, do umbigo das artes portuguesas. Mais um blogue para o Panteão das Musas, menos um que sempre acompanhei desde a minha primeira morada na blogoesfera. Foi-se com vinte e um meses de idade.

Publicado por mb em 09:19 PM | Comentários (2)

novembro 03, 2004

Não Era Dia D Nenhum

Esperam-nos dias mais difíceis. O petróleo vai continuar a subir. De resto, com um ou com outro, a única diferença é que um é mais que outro, mas no essencial estariam de mãos dadas. É essa invenção diabólica a que chamam democracia: democracia de dois partidos, um é suposto garantir as liberdades fundamentais, outro é suposto, por tradição, que não as garanta tanto. As declarações do PS sobre a vitória de Bush são em tudo semelhantes às do PSD-CDS. O sistema de economia que defendem é o mesmo. A esquerda tradicional (não há outra, PC, BE e os Verdes) esgota-se em propostas pontuais e não pode ir ao fundo da questão, porque não tem condições políticas, e, antes ainda e como causa, não tem alternativa real ao neo-liberalismo sem fronteiras e, em Portugal, hoje mais concentrador de riqueza que o Estado Novo foi. Que resta a alguém que queira ser politicamente honesto consigo mesmo? Tornar-se um anarca? O melhor mesmo é deixar de ser cidadão e acordar para os seus deveres cívicos na altura de virar este estado de coisas de patas para o ar. O pior é que temo que seja bem depois das nossas vidas. Entretanto vamos aguentando o barco. É que os estádios nem sempre servem para jogar futebol.

Publicado por mb em 11:44 PM | Comentários (2)

Ensaio sobre a Cegueira em Teatro

Foram três horas e meia de representação, no pátio interior de um enorme e velho hospital desactivado, construído nos fins do séc. XVIII. Por tecto havia as estrelas da noite gelada, por plateia, no espaço que o grande palco inclinado deixava na sua frente, quanto cabia de cadeiras de plástico, com braços, cadeiras brancas de esplanada. Em cada cadeira, um cobertor grosso, para agasalho dos 6-8º C que estariam naquela noite, e uma capa para protecção da névoa de água, que constantemente caía sobre a cena e que obnubilava um pouco a vista, uma metáfora cénica.

O que escrevo não é uma crónica nem uma crítica. Não é crónica porque não vou pôr-me aqui a relatar o Ensaio da Cegueira, encenado e dramatizado por João Brites e traduzido em cena pelo grupo de teatro O Bando. Não é uma crítica porque não sou crítico, gosto é de pensar sobre arte e de escrever o que penso, um modo de me esclarecer melhor a mim mesmo e de gravar ideias na memória.

Por uma questão de gosto e, não menos importante, de reacção a restos tardios de vanguardas, tornados lugares-comuns precisamente por serem restos tardios, prefiro o ideal cénico a que poucas vezes assisti, em que tudo seja exacto e necessário, sem minimalismo nem excesso barroco, um e outro expressões vanguardistas do passado recente do séc. XX que, levadas com o fundamentalismo próprio de quem sustenta vanguardas defuntas, impedem de se aproveitar o que de enriquecedor uma e outra tendência têm, já como herança cultural, digerida e potenciada.

E foi a inteligência desse legado vanguardista, trazido para termos de hoje, que me entusiasmou na encenação. Sendo em tudo exuberante, nunca foi excessiva, nunca teve um momento em que se pensasse isto podia ser de outro modo, aquilo era escusado. O rigor dessa herança assimilada, de uma concepção cénica que transformou a militância do abuso, usando parte da sua linguagem de meios, numa dramatização tão incomplacente com a facilidade e o excesso, quanto exigente foi João Brites em recusar-se a essa espécie de cabotinismo, em que as palmas louvaminham, não poucas vezes, o encenador sem qualidades, parafraseando o título de Robert Musil (lembro-me, a esse propósito, de uma tão pobre encenação de determinada obra de Séneca, num dos mais badalados espaços de teatro de Lisboa).

A idealização e construção do espaço cénico ― cuja grandiosidade me permitiu, pela primeira vez, ver algo em teatro que muito me atraiu esteticamente: a qualidade cinematográfica, se me é permitido dizer isto, das cenas dos guardas numa abertura do primeiro andar do hospital, ao fundo e no cimo do palco (ver a primeira imagem), como se fosse um ecrã, e os actores, apenas imagens ―, a concepção do espaço cénico, ia dizendo, a movimentação e disposição dos actores, a utilização sábia do mimo, o uso de cores vivas no guarda roupa, a intensidade doseada das luzes, a beleza (muitas vezes violenta, como na imagem do centro) de corpos semi-nus e a quase aparição de um corpo fiminino cintilante, símbolo sem dúvida da liberdade, na figura da única personagem capaz de ver entre os cegos, a qual, no extremo da ponte (imagem ao lado), se despe e fica nua de frente para a plateia, erecta e hierática, fortemente iluminada (para que os cegos pudessem vê-la?), tudo isto, em suma, se resolveu numa muito viva e apaixonante plasticidade que constantemente nos questionava, em contraponto com o texto dramatizado do Ensaio da Cegueira de J. Saramago.

Publicado por mb em 10:29 PM | Comentários (0)

Outras enumerações

Ou a secretária é grande, ou a bagunça, enorme, ou as duas coisas. O que está sobre ela:

Acne, António Franco Alexandre.
Duelo, Luis Quintais.
Mais Novembro do que Setembro,G. Apollinaire.
Ou o Poema Contínuo, Herberto Helder.
90 e mais Quatro Pemas, Constantino Cavafy (trad. J. Sena).
Trama de Niebla, Luís Benítez Reyes.
Obra Poética, Baltazar del Alcázar.
Horácio, Obras Completas.

1 computador.
1 monitor.
1 teclado.
2 colunas de som.
1 scanner.

1 lata circular com:

2 lápis, 1 esferográfica, uma borracha, 1 corta-unhas, 1 seringa (?), 3 carimbos, 1 stick de cola, 1 relógio parado.

1 programa de um festival internacional de teatro.
1 programa sobre teatro itinerante.
1 publicação que me deram na peça dramatizada de Ensaio sobre a Cegueira.
1 almofada para carimbos.
contas pagas e por pagar.
1 telemóvel a carregar.
1 frasco de líquido para limpar ecrãs.

Publicado por mb em 08:45 AM | Comentários (0)

novembro 01, 2004

Recordando (e meditando)

Só a paixão amorosa nos faz esquecer a finitude, é como se nos embriagássemos de lume e luz, esse heliotropismo de que fala o mito de Dédalo e seu filho.

Publicado por mb em 12:21 PM | Comentários (1)

Um estado zen terrestre

Não sei se é possível uma espécie de estado zen a dois. Muitas vezes penso que sim, em espaços do dia-a-dia. Um estado em que o corpo também entrasse e fosse parte de um todo não metafísico, um estado de absorção da beleza do mundo (a estética incluída) na vida real e íntima de ambos, ilhas de tempo, refúgios da realidade exterior que nos condiciona, sem deixarmos de afrontá-la, de assumir a dignidade de nos sentirmos parte activa do colectivo, com os sentimentos que lhe são inerentes, entusiasmo, solidariedade, revolta, indignação, etc. Seria um estado complexo de sentimentos sem fim à vista e muito mais perfeito do que a paixão amorosa, da qual, cumprida, resta a maior parte das vezes um grande silêncio.

Publicado por mb em 09:13 AM | Comentários (0)