outubro 31, 2004

Os Sistemas de Comentários Andam pela Hora da Morte

No excelente e dedicado blogue de poesia Universos Desfeitos, o que seria um comentário:

Uma arte poética sobre a linguagem do nosso tempo: um computador no meio de 200 leitões de dentes cortados (com um alicate) e, digo eu, quase contrariando, por ali algo que nunca morrerá antes de nós, uma flor, um pássaro, uma árvore a ligar-nos, pelos olhos, à natureza anti-urbana e à vida. Um bom poema de Juraan Vink.

Publicado por mb em 07:45 PM | Comentários (1)

Say Guesswho

Nunca tive inclinação para santo. Aliás, essa espécie de semi-deuses é sujeita ao acto político da canonização, e os santos deste mundo nunca o são no outro, por não haver outro mundo senão este e por não haver santos, mas seres que buscam a perfeição, tantas vezes desentendida, errada na relatividade do erro e com frequência alheia da solidadriedade humana. Mas se me ponho a matutar em quem será Guesswho e se o palpite for certo, creiam que é o lado bom da minha consciência (ia escrever alma...) que me vem tornando melhor, mas não mais palerma :)

Publicado por mb em 06:57 PM | Comentários (0)

outubro 28, 2004

A Ermelinda

Afinal a Ermelinda anulou a alegria que me fez escrever, com toda a sinceridade, a entrada abaixo: era um nome inventado, um endereço falso, e agora sei que uma inveja anónima, uma de algumas que sei, terá sido quem escreveu o comentário. Ou então alguma ave de arribação. Mas inclino-me para a primeira hipótese pelo jeito como o escreve. Não percebo é como há pessoas que aspiram a mais do que a poesia pode dar, não consigo pôr-me no lugar delas, nem sentir inveja de algo que é tão natural como o respirar, e tão íntimo e próprio de cada um que não poderá nunca pertencer a outro.

Publicado por mb em 09:29 PM | Comentários (2)

Rindo do bacalhau com todos

Ri-me, mas ri-me mesmo de vontade com o que a Ermelinda disse , e ainda estou a sorrir, pareço um daqueles emoticons :) Tem toda a razão. Diz quem me conhece da mesa que sou um cozinheiro amador de excepção (e doceiro, já agora). O resto é como fazer batatas cozidas com bacalhau, ainda que se tenha de saber escolher as batatas, o azeite, o vinagre, o bacalhau, saber que um ovo coze em 10 m precisos depois de a água levantar fervura, e que o bacalhau, num tacho à parte, mal comece a fervilhar, se desliga e espera, tapado, 20 minutos, para se servir (já agora com bróculos cozidos a vapor - uma delícia), tudo numa travessa, com um impecável pano branco a embrulhar. E ainda sorrio. Alegrou-me a manhã a Ermelinda, agora que vou andar 500 kms a conduzir à chuva, e aqui, sim, é que o sorriso se vai, mas resta ainda este eco alegre e matinal com que vou meter-me no carro.

Publicado por mb em 08:59 AM | Comentários (0)

outubro 27, 2004

Sobre um poema

Iniciei um poema que já está no Musas Esqueléticas. Pretendia que saísse uma poema enumerativo como este, vai ser enumerativo, mas já vejo que substancialmente diferente. Agora, depois de enumerar o que se tem, vai-se enumerar o que se teve, e o que se teve é sempre muito mais do que o presente. Intitulei a entrada de Poema em Processo de Construção porque vai crescendo à vista de todos, com um rascunho feito apenas sobre o texto editado. Quase que dava para um poema colectivo, dava de certeza, o que se passa é que este é um desafio posto a mim mesmo, retirar lirismo e poesia sobre a condição humana a partir de enumerações. Vamos lá ver se sai. É sempre um risco trabalhar em directo. Mas também é um incentivo evitar perseguir-nos a vergonha de não acabar o poema.

Publicado por mb em 10:18 PM | Comentários (0)

outubro 26, 2004

Sem

Há muito que queria dizer isto: o espantalho do anti-semitismo, usado por parte da direita e extrema direita israelitas, não é mais do que um embuste malévolo e sub-reptício para baralhar as pessoas mal informadas e para ocultar à opinião pública a realidade, sem os próprios mentores saberem muito bem, ou fingirem não saber, o que é um semita. Com isso visam anular o anti-sionismo. Ser-se contra o sionismo é uma posição lúcida e justa, como o é ser-se contra tudo o que prive da liberdade os povos e as pessoas, nomeadamente a liberdade social que a Sara reivindica de poder ser diferente, já que é por causa da sua entrada no Cacaoccino que estou a escrever esta.

Sharon é um sionista, um racista, ele e muitos outros (ainda que ser-se judeu não seja uma raça). Sou tão solidário com o povo israelita quanto sou anti-sionista, e nisto não há nenhuma contradição. Há, isso, sim, uma coerência de atitude, e não se aduza que, para mim, os árabes fundamentalistas, são justos, porque são iguais aos sionistas que, se não degolam inocentes e os matam com kamikases em troca da eternidade pregada por Maomé, fazem-no com tanques, rockets, mísseis, aviões em troca da morte e sem morrerem.

Justa é a resistência organizada contra os invasores de um território, que inclui a resistência armada, a sabotagem, a condenação dos colaboracionistas, falo dos palestinos, dos iraquianos, a luta dos judeus de Varsóvia contra Hitler, a dos franceses opostos a Pétain, a dos Lusitanos contra Roma, a dos gregos contra os persas de Dario e de Xerxes, etc. Toda a História está cheia de invasores e de povos resistentes à invasão. Se virmos os acontecimentos da actualidade à luz da História, só os cegos não entenderão estes movimentos, os piores cegos, ou seja, os fanáticos do quer que seja. Cada vez estou mais certo de que a lucidez política se ganha com o conhecimento da História, de que só essa lucidez nos permite a liberdade nos juízos e nos preserva da intoxicação da propaganda, cada vez mais insidiosa e disfarçada.


Publicado por mb em 08:32 PM | Comentários (0)

Molhos com alho

Este não é o aioli, a maionese, do Digitalis, mas o all i oli catalão:

6 dentes de alho grandes
1/2 L de azeite
Sal grosso

Num almofariz, esmagar pacientementemente, com sal, os seis dentes de alho descascados. Quando estiverem a começar a ficar em massa, juntar muito, mas muito lentamente o azeite, menos que um fio fino, partes quebradas desse fio, pingas mesmo, e ir amassando e mexendo com o pilão sempre no mesmo sentido. Está bom quando se agarrar ao pilão e não cair.

Acompanha esplendidamente borrego na brasa, que me lembre.

Maionese de alho assado

Asse no forno, envolta em papel de estanho, uma cabeça de alhos inteira. Quando estiverem assados os dentes de alho (moles), desfaça-os no copo de bater com 2 ovos inteiros, gemas e claras, duas colheres de sopa de vinagre branco (é óbvio), sal fino q.b. Deixe repousar uns 5 minutos, e depois vá deitando óleo sem sabor (girassol, milho, nunca de soja). A maionese vai engrossando e sempre que a lâmina comece a rodar em falso, pare, e, com a colher, deixe sair o ar, e torne a bater, adicionando sempre o óleo até ficar na consistência e brilhante. Corrija de sal.

Sal e os alhos assados são os únicos temperos que leva, além do vinagre inicial, que não tem funções de tempero, mas de cozer as gemas.

É uma maionese de sabor muito requintado que merece o melhor marisco. Se for lagosta cozida, sirva com champanhe bruto à luz das velas. Bom para uma casalinho apaixonado da classe média, no princípio do mês ― e ao jantar, of course. Se estiver com o coração a bater normalmente, feliz há anos, por exemplo, com amigos, com a família, fique-se pelo camarão de Moçambique e beba um Bucelas Prova Régia, nunca pense no casalinho e não diga que não tem sorte nos tempos que correm.

Publicado por mb em 01:41 AM | Comentários (1)

À Papo Seco

Foi-se mais uma vez o Ossanha, rapando tudo e não dando cavaco a ninguém. Cada um sabe de si, e Deus, de ninguém. Deixou-nos um texto algo sonoro de Ralph W. Emerson como by, by, people.

Publicado por mb em 12:41 AM | Comentários (0)

Mas nunca é tarde para dizer adeus

Foi-se há algum tempo a Inês do My Moleskine, ficou a outra Inês, algures na realidade. A virtual está agora no Panteão das Musas, como todos os blogues de qualidade que morrem. Deixou-nos um poema de cummings, também virtual, como todos os poemas acabam sempre por ser.

Lembro-me de que tercei armas por ela contra uma senhora que, se pusesse aqui a ligação, vinha logo ter comigo via Technorati pedir-me satisfações. Terá sido por uma questão de português, se não me engano. É uma senhora, onfálica e enfaticamente, omnisciente em coisas da língua pátria, sobretudo do ramo da Etimologia, não digo mais. À bon entendeur, etc.

Publicado por mb em 12:11 AM | Comentários (0)

outubro 25, 2004

O atrasado involuntário

Wellcome to Elsinore fez ontem 1 ano, o que é uma idade provecta para um blogue. (Todos sabemos isso, gritam-me, ó acaciano debitante do lugar comum, ó escrevinhador de parabéns bacocos.) Sucede que no dia, ou melhor, na noite do aniversário, eram quase 24:00 h, tinha uma entrada toda bonita que se sumiu, com a imagem de uma botelha (ou bouteille?) de Don Pérignon, e falava da virtualidade e da realidade. Na virtualidade o Elsinore, que nada tem a ver com Shakespeare, dei por isso há dias (com alguma pena, prefiro Shakespeare a Cesariny, outra do C. Acácio), o Elsinore, dizia eu, estava cheio de gente, o barulho era demais, e tínhamos saído para o ar livre da realidade, de Don Pérignon na mão, não sei se para alguma rua da Invicta, se para outra de algures um pouco mais a norte. Não andarei longe.

Acabei por ficar por aqui e ― amigo da onça ― não abri a única garrafa que tenho de champanhe, e mesmo de espumante, na garrafeira. Isso mesmo. Uma Don Pérignon de 1985, única sobrevivente de três que tive. Como outros vinhos de topo, estou a guardá-la, avarento, para a hora da minha morte, um dedalito de cada, se aos moribundos fosse dado morrer alegremente e se os herdeiros fossem parvos. Mas se tivesse havido uma drink party no Elsinore, juro que a levava, que nos cabe a nós, vivos , consumir quanto pudermos os prazeres deste mundo, dos quais para mim o vinho é o segundo melhor. É por isso que, para gente como eu, a existência é sempre curta e, estou certo, mais vezes alegre do que aborrecida. Parabéns então, com um pedido de arquive-se pelo atraso, se puder ser. E já vi que não mereço um link. Chegar fora de horas tem às vezes os seus custos. Agora só daqui a 364 dias. Se o próximo ano não for bissexto :)

Publicado por mb em 11:26 PM | Comentários (2)

outubro 24, 2004

A NOZ

É uma envoltura formada por duas peças tão unidas,
que é lindo de se ver: parecem as pálpebras quando
se fecham no sono.

Se a fende uma faca, dirias que é uma pupila
que o esforço de olhar torna convexa.

E o interior podias compará-lo ao da orelha
por suas pregas e esconderijos.

Ibn al-Qutiyya, poeta do Al Andaluz, séc. XI, tradução das Musas daqui, que não sabem árabe.

Publicado por mb em 03:06 PM | Comentários (0)

outubro 23, 2004

Olhos arregalados, gargalhada
e uma serra tão longe de Azpeitia

Será essa Isabela Loyola da imagem abaixo que a Carla de Elsinore quer k? (Ver em 22.10, o permanent link não faz ligação directa.)


E a propósito do blogue Wellcome to Elsinore, conheço bem esta serra (idem, 23.10). É uma das serras que, no Inverno, com neve, me gela aqui, quando o vento sopra de lá para cá.

Publicado por mb em 02:18 AM | Comentários (1)

outubro 22, 2004

As meias brancas

Devo esquecer, nos versos que escrevo, as injustiças do mundo, os atentados contra a vida e a dignidade de tantos seres humanos? Devo aceitar que um psicopata ex-alcoólico (e a sua cúria) domine outros povos, muito provavelmente eleito daqui a três semanas por uma parte dos seus concidadãos, acríticos e imbecilizados pelo próprio sistema - devo banir dos meus versos a minha indignação e tristeza? Devo ignorar estes temas que sempre foram da poesia, que eu saiba desde Homero? Hoje as crianças e as mulheres morrem aos milhares em guerras e, por o sabermos tão bem, por as vermos tantas vezes na televisão, até se tornarem imagens invisíveis, parece até que não morrem. E, no entanto, morrem. Crianças, mulheres, jovens, homens inocentes ou que lutam em defesa do seu país. E hoje, por moda e tendência, lemos livros e livros de poesia portuguesa de edição recente, sem que surja um verso a revoltar-se ou a entristecer-se, ou a lamentar estas realidades do nosso tempo. A poesia de hoje não deve reflecti-lo também neste aspecto? Nem só lixo, escuridão urbana, e por aí fora, digo eu. É que as modas aguçam em alguns o medo do falso ridículo. Imagine-se o que era Pedro Mexia (poeta de que gosto bastante, com algumas ressalvas, como é natural) escrever no DN que sicrano tinha uma poesia de há mais de meio século atrás, que era um neo-realista tardio. Penso que para esse sicrano seria o mesmo que ir ao Tavares Rico de fato cinzento, gravata clara, sapatos pretos, etc. e meias brancas, se soubesse destas peraltices.


Publicado por mb em 02:11 PM | Comentários (0)

outubro 21, 2004

Poetas nascidos depois do 25 de Abril

É sempre com alegria viva e franca que descubro poetas novos de qualidade. Há tempos deparei com uns poucos no Ossa et Cinera, um blogue colectivo de poesia que é só deles, uma espécie de tertúlia flutuando na Blogoesfera. Desses, deixo-vos dois, cada um também com o seu blogue individual, com acesso ao fundo dos respectivos poemas.


Ábaco

No início, contavam as uvas como se fossem
Pérolas de um sol despenhado,
Cristalino e subitamente
Transparente no chão do mundo,
Escoando os seus cabelos para dentro de um barril,
Puxado em fragmentos por um motor
Uma bomba de água
De
Sangue.
Contavam as uvas e elas batiam umas nas outras,
Sequiosas de grãos de areia,
De terra,
De água,
De sangue, e restos de uma estrela
Despenhada subitamente
No chão do mundo
Dentro de si,
Entre os dedos dos que as colhem das videiras

Groze, no Lonely Gigolo

Quando cresci

Quando era pequeno,
comprimi formigas-de-asa
contra o espeto de pequenas ratoeiras.

disfarcei as ratoeiras na terra
e esperei que a fome dos pássaros
os levasse até à emboscada.

sorrindo,
vi as formigas e os pássaros definharem
no sufoco de arame prensado.

hoje, ao escrever,
tento recuperar colericamente a vida e os céus
dos seres que matei.

Astrophil, no Saliva

Publicado por mb em 02:04 PM | Comentários (4)

outubro 20, 2004

É tempo de castanhas

Se gosta de castanhas como as dos assadores de rua e se tem fogão a gás, golpeie-as como é costume e ponha-as, com sal, a lume médio, num tacho vazio e destapado. Vá-as sacudindo de vez em quando. Quando estiverem assadas, por dentro são iguaizinhas às quentes e boas que se ouviam apregoar na margem direita desse rio ao lado, e na avenida em frente ao mar. São óptimas com um Dão Novo, de maceração carbónica, o método do Beaujolais, ou com uma boa água-pé tinta do Ribatejo ou do Oeste. E não se esqueça, as melhores castanhas do país, as mais docinhas, são as dos soutos de Sernancelhe, vila da Beira Alta, no distrito de Viseu.

As castanhas fritas já não são novidade para muitos. Golpeiam-se como para assar e fritam-se na fritadeira. Descascam-se muito facilmente. Novidade já será se, praticamente no fim de assar carne, qualquer carne, retirarmos o molho da assadura para um tacho e em lume lento passarmos as castanhas fritas pelo molho até ficarem mais ou menos embebidas nele. São um óptimo acompanhamento.

E já agora o segredo dos molhos da carne assada e do próprio assado é, desde o início, o tabuleiro ter sempre um fundo de água que se tornará o molho. Se quiser um molho mais "evoluído", desengordure-o, passe-o por um coador, reforce os temperos (sal e pimenta preta), mais do que a carne, e espesse-o com fécula de milho (Maizena), dissolvida num pouco de água fria.

Publicado por mb em 11:46 PM | Comentários (3)

Um dos eleitos

Arca da Jade, pelo rigor e leveza da sua estética, o blogue de uma poeta, um blogue de gatos e de poemas sobre gatos.


                
                Escultura egípcia (cópia), Dinastia XXVI

                 Não sei
                 se teria aprendido com os gatos
                 o dom da liberdade.
                 Sei que só a encarceram os limites
                 tão distantes do mar.

Publicado por mb em 08:50 PM | Comentários (2)

Os Resistentes

Estou há ano e meio na Blogoesfera, se contar com outro blogue que tive e ficou, parte, guardado nos arquivos daqui (a outra parte, alojada no Terra Brasil, afundaram-no nuestros hermanos de la Telefónica no mar dos Sargaços). Quero assinalar os blogues que venho acompanhando, nascidos antes de eu chegar a este mundo que dizem breve - se aquele em que assento os pés o é, quanto mais a Blogoesfera. Sem prejuízo de vir a destacá-los como fiz com a entrada acima, por uma ou outra razão, mas sempre pela sua qualidade, ocorreu-me ver quais eram e louvar-lhes, além do mais, a sua longevidade. Correndo o risco de ser inexacto por excesso, (reporto-me a Março de 2003), são onze os que se mantêm de trinta e tal. Fazendo as contas e tomando por base a hipótese de 36 blogues, temos a taxa anual de mortalidade blogoesférica bastante elevada:

{[(36-11):36]x100}:1,5=46,3%.

Eis os sobreviventes desde o meu primeiro dia, salvo erro e omissão:

Almocreve das Petas

A Montanha Mágica

A Natureza do Mal

Fazendo Caminho

Janela Indiscreta

Little Black Spot

Modus Vivendi

Não Esperem Nada de Mim

O Essencial e o Acessório

Thelma & Louise

Um Pouco Mais de Sul

Que vivam tanto ou mais que eu na efemeridade luminosa dos monitores. Evitemos, pois, ser borboletas nocturnas, no seu fototropismo breve de Verão. É sempre com pena que vemos os outros calarem-se. Talvez porque, de um novo modo, já fizessem parte das nossas vidas.

Publicado por mb em 08:28 PM | Comentários (2)

Faits Divers mit links

Se o mundo fosse a Blogoesfera, e os USA, o mundo que progressivamente estão a ser, não do latino mare nostrum, mas da pós-moderna terra nostra, Bush ganharia as eleições só nos estados do Arzebeijão, Barbados, Congo, Liechtenstein , Ilhas Cook, Ilhas Marshal, Montserrat, Nepal, Níger, Ilhas Niue, Ilhas de Saint Pierre e Miquelon, e, acrescento eu, na Ilha da Madeira do imperador democrata João Alberto.

                                        *

“You are very perceptive and smart. You are clear and to the point and have a great sense of humor. You are always learning and searching for understanding.” I agree with this, but yellow, me? Never!

                                        *
Certamente ainda sob o efeito da catarse da leitura, digamos assim, Alexandre Borges põe Kundera face a Kafka, García Márquez, Raymond Carver e quaisquer outros (sem excepção? pergunto eu).

                                        *
Caro Henrique Silveira, ao fim de tanto tempo de o ler, deixe-me tratá-lo assim formalmente, e deixe-me perguntar-lhe se lhe parece que haverá no país carros, comboios, autocarros, camiões, aeronaves e navios que cheguem para levar à Gulbenkian os oito milhões de lusitanos que habitam a paisagem e, destes, apenas os que gostem de arte. Concordo, para amar a música boa e a música grande, a arte e a beleza estética nunca é tarde. Mas é sempre cedo para esses bens saírem para fora das muralhas do Castelo de S. Jorge. Eu sei que a culpa não é nossa (por mim respondo). Estou tentado a culpar os governos e os ministros das Finanças, já que os da Cultura, por causa daqueles, são inimputáveis. Mas, vendo bem, os verdadeiros responsáveis são os eleitores portugueses. Sendo assim, não há remédio. É uma doença crónica e multissecular. Só se mudássemos de povo o país todo, incluindo, claro, a Madeira. Oremus.

Publicado por mb em 01:35 PM | Comentários (0)

outubro 18, 2004

Cozinhar - às vezes um passatempo - Bifes Escondidos

Para a Maria do Digitalis, que me fez tamanho espicho que fiquei corado, uma receita óptima de bifes que, por duas vezes, comi no hoje agonizante Escondidinho, em frente ao Coliseu do Porto, nem sei se já fechou. Fui lá há coisa de dois anos e fui maltratado na mesa e na carteira. Com o Comercial, perto da Bolsa, encerrado há muito, eram os melhores restaurantes da Invicta. Recriei a receita e sai igualzinha à que lá se comia. O melhor nem é os bifes, o melhor é as batatas fritas :)

Bifes de alcatra, espessura de um dedo mindinho, de preferência de carne maturada no frio, escura, cor de vinho - 4
Batatas a olho para quatro pessoas que adorem batatas fritas, mais que os miúdos.
Cebolas médias - 3
Água e vinho branco de alguma qualidade, 1/2 de cada q.b.
azeite q.b.

Numa sertã sem ser antiaderente, frite as cebolas em rodelas muito finas, até ao ponto em que estejam bem transparentes e antes de alourarem, ao princípio com lume forte e, depois de adiantadas, em lume médio/fraco. Retira-se e espreme-se a cebola frita, para que largue todo o azeite, que se devolve à frigideira, e põe-se de parte a cebola.

No azeite de fritar as cebolas, agora muito bem quente e o lume na sua maior força, fritam-se, no máximo, dois bifes de cada vez. Em estando frita uma face (caramelizada, tostada - 2 minutos ou 3, conforme o fogo), viram-se os bifes e temperam-se, na face frita, com sal grosso e pimenta preta moída na altura. Estando a outra face igual, procede-se do mesmo modo, e põem-se os bifes à parte, num prato.

Retira-se a frigideira do lume, e vai-se lavando o fundo da sertã com a mistura do vinho com água, dissolvendo os sucos que ficaram agarrados, com a ajuda de uma colher de pau. Ferve para evaporar o álcool e misturar bem os sabores. Daqui deve resultar um molho castanho escuro, bem líquido, entre a cor do chocolate de leite e do chocolate negro. Juntam-se as cebolas já fritas ao molho, aquecem-se, juntam-se os bifes e o suco que largaram no prato, aquecem-se também.

Normalmente os bifes são mal passados. Mas há sempre quem não goste, e para essas pessoas, com o devido respeito, os bifes devem ser da espessura de uma sola e tão encortiçados como ela, isto é, totalmente passados :)

Entretanto, deu-se um pré-fritura, uma cozedura no óleo da fritadeira, em batatas próprias para fritar (vermelhas, variedade Desirée, por exemplo), às rodelas com mais ou menos dois milímetros de espessura (isto para as distinguir das mais finas, batatas fritas à inglesa, hoje vulgo de pacote), e depois acabam de fritar-se em óleo bem quente. Numa travessa põem-se os bifes bem repartidos e, por cima, a escondê-los completamente, as batatas fritas. O molho, e a cebola que está nele, molho que, faço notar, deve ser abundante, mas não tanto que fique aguado - e que inclui o azeite - espalha-se igualmente por sobre as batatas fritas, tendo o cuidado de distribuir bem a cebola.

A particularidade deste prato é que tudo sabe a cebola, os bifes e as batatas fritas, num sabor genuinamente do Norte. Que beber? Um bom vinho do Dão, entre 12 e 12,5º, já com uns anos de garrafa (até cinco), se possível. Um Quinta dos Roques, ou então um da Península de Setúbal, o Quinta da Bacalhôa. Eu sei que vinhos destes estão pela hora da morte, mas um dia não são dias, e lembremo-nos: bem melhor do que um vinho, mesmo sofrível, é a água, desde que não seja del cano.

Publicado por mb em 11:46 PM | Comentários (4)

As Musas Esqueléticas Vão Emagrecer Mais

As Musas Esqueléticas vão sofrer um emagrecimento, vou retirar da vista os arquivos Poesia Escrita em Blogues e Entradas para Uma Antologia Efémera, por, com este blogue, não se justificar que constem naquele e por não terem sido mais actualizados. Alargarei o arquivo Poetas a Meu Gosto e passarei para este blogue o arquivo Por onde Caminho. Entradas de outros blogues serão distinguidas por ligações, sem transcrições, salvo quando se revele impossível não as fazer. Irei colocando poemas escritos em blogues, naturalmente nomeando o seu autor e fazendo respectiva ligação, pedindo-lhe sempre que possível prévia autorização, caso contrário dando-lhe conta a posteriori e dispondo-me, como é óbvio, à retirada do poema, se não autorizado.

Publicado por mb em 12:20 AM | Comentários (1)

outubro 17, 2004

Girl with a Pearl Earring no Cineclube

É um filme digno de um cineclube, não o tinha visto, de resto fiquei um outsider do cinema mais recente, nem sequer tinha pensado no cineclube daqui, as seis ou sete salas comerciais passam enlatados, pelo menos objectivamente rodados para pôr as pessoas acríticas e no limiar da irracionalidade, e então há um mês decidi voltar ao cineclube, de que, aliás, fui um dos directores.

Além da fotografia, que nos levou facilmente para o tempo da pós-Restauração, mas na Holanda, fotografia rigorosa do português Eduardo Serra, que ganhou com este filme o 2.º Óscar, o que, num sector tão tecnicamente exigente, julgo não adquirir o significado qualificante do melhor filme, etc. para mim pelo menos não adquire, além da fotografia, estava eu a dizer, o rigor da disciplina de realização foi, a meu ver, uma qualidade central e omnipresente, com que Peter Webber conseguiu o feito raro de manter a catarse num nível tenso e constante ao longo do filme, por isso sempre a correr o risco de tropeçar no melodrama, sem nunca ter caído nele.

Não sendo uma obra de topo, é um filme muito bem contado, com excelente desempenho dos actores, nomeadamente, mas não só, da belíssima garota Scarlett Johansson, garota como dizem no Brasil, e em particular um amigo meu, poeta de Ribeirão Preto, que tem uma série deliciosa de poemas de garotas da sua idade, e mais novas, e penso que mais velhas, estas a caminho de perderem esse estatuto e de ganharem o de mulheres que afinal todas são.

Não deixo de assinalar o desempenho dos actores secundários, nomeadamente, e por ordem decrescente, os que tiveram o papel de sogra de Vermeer, da cozinheira, da mulher do pintor, da filha mais velha e do namorado de Griet. Naturalmente, para mim, os actores são apenas parte, e por trás deles têm muito trabalho da equipa que os apoia, filma e dirige. O Cinema é uma arte colectiva. Como o Teatro, embora neste os actores fiquem muito mais entregues a si próprios.

O filme foi motivo para a exposição temporária hoje inaugurada no As Musas Esqueléticas.

Publicado por mb em 11:54 PM | Comentários (0)

outubro 16, 2004

Não fui às Caldas

Ontem, tinha acabado de chegar do Sul, quando escrevi uma entrada parecida com o que esta há-de ser. Foi-se, na luz do monitor, para o nada dos ateus metafísicos, que elegem a inominável ausência como um deus e a grafam com maiúscula ― assim: Nada. Mas este assunto agora não é para aqui chamado, talvez volte a ele depois.

Dizia no evolado (*) post que não sendo taxi driver, nem o camionista de longo curso que nunca fui, e sonhei um dia ser durante seis meses, num só ano, pela Europa acima, de Abril a Setembro, sem neve nem gelo, claro (é dura a vida deles), dizia que não sendo uma coisa nem outra, vivia, e vivo, de digerir carros e quilómetros para comer. E que, por ter lido no blogue Um Pouco de Teatro, estive para ir ver Krapp’s Last Tape, de Becket, às Caldas da Rainha, cidade de lembranças para sempre doces, e também por associação ao seu nome, da humilhação praxenta de ter bebido não sei se meio litro de vinho por um grande coiso de barro garrido, de que os veteranos pareciam falicamente orgulhar-se, como se fosse o próprio deles.

Já vira a peça num dos festivais de La Escena Contemporânea de Madrid, e era para comparar, mais uma vez, as nossas encenações com o que tenho visto, estrangeiro, dentro e fora do país. Pesaram mais os duzentos e tal quilómetros pela frente, a fazer com chuva e de noite, e o argumento a priori de que sairia desiludido, desculpa velhadesterradamente negativa.

Não fui. De castigo, ficou-me água na boca por ter lido outro anúncio no mesmo blogue, ligação obrigatória para quem goste da mais completa de todas as artes ― ressalvo: para mim, claro, para mim, e para outros que, como eu, nada têm a ver com teatro, senão amá-lo como só é possível amar uma arte. É que o acontecimento cénico (tem a estrita obrigação de ser um acontecimento cénico) é apenas para os habitantes da capital, por se desenrolar em quatro dias sucessivos, cada dia a sua parte. E tecia as batidas e justas queixas sobre o secular centralismo liliputeano de Lisboa, a quem o resto é paisagem paga uma parte choruda dos duzentos e cinquenta milhões de prejuízo do Metro, além de tudo o mais que vinha a ouvir na TSF do debate do OGE, não falando nas públicas e ocultas sinecuras que os financeiros do Opus esconderam algures, sob os números. Valha-me que não há revolta que me apague a luz de Lisboa nem que impeça de ser para mim, entre todas do mundo que sei, a cidade mais bela, ressalvando o lugar aqui à direita, nas fotos da Miúda. Mas esse é apenas um lugar, e não somente apenas, é o lugar da minha infância, e os lugares da infância são únicos como as mães na nossa memória.

(*) O itálico é para me lavar do adjectivo ridículo.

Publicado por mb em 08:32 PM | Comentários (1)

outubro 14, 2004

O Bloco

A propósito de As Musas Esqueléticas, não é pera doce manter um blogue de poesia acabada de fazer, além das traduções também na hora, tal como naqueles restaurantes castiços em que tudo é feito no momento (os industriais de mono-restaurante mais "chiques" dizem ao momento, como escrevem gambas ao alho, e uma vez até li ao agilho). Mas já me perco. Um blogue desses, no entanto, tem duas vantagens: sacode a preguiça a quem é preguiçoso como eu, e é-se lido. Não há quem escreva para não ser lido, é um lugar comum, embora haja quem escreva por necessidade e alegria de criar, sem mais prebendas do que dar-se a ler e alegrar-se quando gostam do que escreve, o que não passa de uma posição entre outras, legítimas todas elas.

Por não ser pera doce, para tirar a mordaça de não dizer uma palavra senão em verso, resolvi então começar a escrever neste bloco, não sei se em boa hora - não devo esquecer-me de que hoje é dia 13. Enfim, falarei de poesia e do que me vier à cabeça. Parafraseando alguém, este é um lugar de liberdade.

Publicado por mb em 08:06 PM | Comentários (0)

Oríon - Um Conto para Encher o Template
É para sair


Era uma aldeia branca e desabitada. As casas subiam por uma colina de onde, olhando, se alcançava toda a planície ardente. Os vãos das janelas destruídas pareciam escuras órbitas, e algumas conservavam os caixilhos sem vidros e trancadas as portadas de madeira. O mais parecia intacto. Nem um cão, nem um pássaro ou cigarra pontuavam a mudez em redor. O sol abrasava a rua, coberta de uma fina camada de areia que o vento fora carreando ao longo do tempo.

O homem surgiu no umbral com uma espingarda. Alto e magro, de cabelos compridos, rala a barba, os olhos sem brilho, tanto podia ter trinta como quarenta anos. Ficou ali a adaptar-se à luz intensa; depois atravessou a rua, meteu-se pelo portal em frente e seguiu pelo carreiro até ao barracão do fundo.

Oríon — chamou.

Estava escuro no interior e não o via. Oríon, repetiu, e desta vez respondeu-lhe um brando resfolegar. Ah, estavas acordado, porque não dormes? Devias dormir, disse, é má coisa remoerem-se ideias no escuro. Vinha abrir-te a janela para acordares. Talvez não distingas a cor do céu, no entanto quem sabe o sol não te lembra a planície? Lembra-ta com certeza, quando te deixava correr nela, livre como um vendaval. Melhor te saberá recordar esse tempo que estares para aí a cismar na má sorte.

Abriu as portadas e a janela toda. A claridade revelou o corpo magro de um cavalo ruço prostrado na palha. O olho negro fitava o homem e as pestanas piscavam por causa da luz.

Foi por um balde de água; de volta, encheu a marmita e acocorando-se diante do cavalo aproximou-lha do focinho dizendo bebe, anda, nunca imaginei que chegasses a este ponto. O cavalo levantou a cabeça e sorveu a água amparado pela mão do homem.

Não sabes, continuou, quanto de noite me tem custado não te ouvir a respiração, adormecia com ela a meu lado, dava-me confiança, e agora o silêncio é espesso como o silêncio dos teus olhos, os teus olhos devem ser iguais aos meus, e desse modo o silêncio parece também não ter remédio. Porém, és um cavalo e não entendes nada de silêncios, embora mexas as orelhas a determinadas palavras, e só o facto de ouvires já me parece suficiente. Desconheço é se conservas a tua obscura lucidez animal, se tal lucidez existe, julgo que exista e a conserves, e desse modo sejas um interlocutor. É melhor pensar assim para não desaprender de falar, para poder falar e não esquecer as palavras que se tornaram tão importantes numa situação como esta. Preciso de falar, e é necessário guardar, de todas essas palavras, a mais volátil hoje, conquanto já a não possas encarnar no seu significado nem por isso suscitar-ma. Não obstante te ame como se amasse uma mulher com quem vivesse há muito — um desses mudos amores que outrora acreditava haver —, sei não só que não a podes suscitar como ainda podes levar-ma. Esperança é a palavra, e repara como se tornou débil: és um cavalo sem futuro, sem futuro como eu, mas com uma forte diferença: sou um humano com vida por viver, estou em condições de recusar o presente, isto é, de sonhar que algo me venha surpreender, apesar de sentir isso apenas dentro de mim.

Entretanto, enquanto se espera, pode-se ir preenchendo os dias com bem pouco, prosseguia. Vê, achei uns figos secos numa casa lá do cimo, estavam no fundo de um pote de areia, uma engenhosa forma de os conservar. São muito doces e matam a fome, e, acredita, hoje não há nada melhor do que esta realidade humilde, a de haver figos tão doces quando o pão de cada dia é a áspera bolota das azinheiras. Dantes dava-te guloseimas, comprava-as em lojas de luxo, lembras-te? Deves ter saudades delas, não? Era uma fartura sem sentido, mas eu amava essa fartura e tu também, era como um ritual. Contudo, os figos agora são bem melhores do que essas porcarias embrulhadas à laia de chocolates. Trocava, isso, sim, dois meses da minha vida — se os vier a ter, dir-me-ás —, trocava-os por duas garrafas de um bom tinto, uma para mim, outra para ti, deve haver um mínimo de dignidade em ocasiões destas. Quem sabe se a casa grande não terá uma garrafeira? Com uma biblioteca como aquela, há-de ter também uma garrafeira. Vou até lá ou basta-te um figo? E deu-lhe um figo: o cavalo apanhou-o com a ponta dos beiços e ficou a mastigá-lo. Talvez haja vinho, tornou, há de certeza, vou ou não vou?

É melhor deixar ficar aqui o Oríon, pensou, de qualquer maneira morre, ao morrer-se de talvez inanição pouco se sofra, talvez seja um mero esvair-se a vida. Não obstante ter pensado isto, pegou na espingarda, puxou a culatra e encostou o cano à testa do cavalo. Não me olhes assim, disse, não sou psicopata, talvez tenha sido uma fera, nem sabes quanto penso nisso, e na culpa, não apenas na minha, na culpa de todos, mas psicopata não sou, e é por não ser psicopata que tenho de te matar. Se te levantasses e ao menos trotasses um pouco, soltava-te, ias por essa maldita terra adiante, encontrarias uma ribeira, escalrachos, a sombra dos amieiros, eu sonharia até uma bela égua de pêlo luzidio e pernas nervosas para ti.

Mantinha a arma encostada. Levou o dedo ao gatilho. O cavalo fitava-o, as pestanas brancas piscavam. Parece adivinhar, pensou, e teve um clarão de lucidez ao chamar à memória cenários tão irreais, face à luz crua do sol e ao silêncio espesso que chegavam do exterior. Sentia a pobreza, a melancolia da palha de balanco que ceifava para a cama dele, o cheiro forte e picante dos excrementos e lembrava-se das cidades deixadas para trás do galope de Oríon — nada delas tinha sobrado, senão extensões sem fim de escombros—, e ambos num só ser, como um centauro, cavalgavam e cavalgavam a fugir da morte.

— Não sou capaz! — exclamou, afastando a arma. — Porque não te levantas, enh? Porque não te levantas e não nos levas daqui? Deve haver vida algures, não te lembras disso? Não, não te lembras. Não te lembras sequer da aveia verde. Nem me entendes. És apenas o raio de um cavalo entrevado.

Não volto mais, disse, cada um tem o seu tempo e o nosso expirou há muito. Fechou a janela. Não é justo a tua desgraçada condição física ter-me apelado para acabar contigo. Dei-te o sal todo que encontrei, obriguei-te a beber água, baldes e baldes dela com o sal, essa maldita desidratação não te passou e agora tinha de te matar?

Aquela situação fazia-o recordar o velho imundo que tinha abatido, esse, sim, como se abate um cão raivoso. Aconteceu numa cidade outrora clara e bela, arrasada e deserta como as demais por onde vinha passando na fuga para norte. Quando se acercou dele, apeou-se e sem largar a arma perguntou:
— Ei, tu! — o outro nem se tinha voltado. — Pode-se arranjar de comer?
Assava carne num brasido. Tornou:

— Que estás aí a grelhar? — e espreitava.

O velho ocupava-se em cuidar da carne e parecia não o ouvir.

— Proponho-te um negócio — insistia sem tirar os olhos da carne. — Dou-te o meu relógio por um bocado disso. É um bom relógio.

— E esta é uma boa carne — respondeu enfim o velho sem tirar a vista do assado. Tinha uma voz esganiçada, de falsete. — Não preciso de relógios. Ninguém precisa de relógios. Aliás, tenho um de ouro. Hoje não vale nada. Assim podes calcular melhor o valor do teu. Não sendo de ouro como suponho, tem uma cotação abaixo de zero.

— Talvez te interesse então outra coisa que trago comigo.

— A economia é impossível desde que a guerra acabou. Por isso nada me pode interessar senão comida e água — o velho mantinha-se fixo no assado.

— Pode ser muito útil — teimava, os olhos fugiam-lhe para a comida. — Hoje em dia é um bem precioso.

O velho voltou-se. A barba que dantes teria sido branca estava amarela do fumo de muitos dias e os cabelos ralos deixavam ver na calva a sujidade encardida. Os olhos pequenos e astutos como os de um raposo pareciam cintilar:

— Que bem é esse? — fingia-se, contudo, desinteressado.

— Uma cápsula de cianeto.

Abanou a cabeça como se fosse um omnisciente e comentou deves estar louco, a última coisa que desejo é morrer. Quem me dera viver até aos cento e cinquenta anos, e virou-se de novo para as brasas. O homem avançou e encostou-lhe a arma à nuca:

— Não passas é de hoje!

— Espera! — o velho ergueu-se de um salto e levantou os braços, sujo e patético. — Não te exaltes! Vê, não ando armado Não passo de um pobre diabo. Dou-te de quanto tenho, juro — e com as mãos ainda levantadas acrescentou, indicando uma pedra junto do lume: — Senta-te ali. Não tarda, está pronto. Podia dar-te muito mais. Fui rico, possuía uma das mais valiosas colecções de moedas de ouro do país. Levei uma vida inteira, quarenta e seis anos, a juntar centavo a centavo. Ver a colecção crescer era a minha felicidade e hoje jaz soterrada na caixa-forte de um banco que não existe. Vê como sou um desgraçado. No entanto, mesmo essa perda incalculável não me impede de partilhar contigo o que tenho. Aliás o teu aspecto não é o de um ladrão — baixara os braços e sossegava. —Ter-me-ias abatido mal me visses assar a carne.

— Estás com sorte. E é fresca?

O velho agarrou num saco. Abrindo-o garantiu é de ontem, é tenra, parece vitela de leite.

— Má hora para piadas.

— Estou a falar a sério. Olha — e tirava algo de dentro do saco.

De súbito, o homem ficou lívido, as entranhas engolfavam-se-lhe em vascas, a náusea e o asco sacudiam-no em arrancos de baba e fel. O velho fugia aos pulos entre as ruínas, a perna de criança ao alto, o pequeno pé a dançar numa cena grotresca. Com as lágrimas dos vómitos nos olhos mirou o vulto e atirou. O velho caiu de borco, largando a perna.

Fechava agora o barracão e tomava o caminho de volta à casa. A morte de Oríon é bem diferente da morte do filho da puta do avarento, pensou, gente desta nunca ascendeu à dignidade humana, viver ou não para homens assim e naquelas circunstâncias podia muito bem depender da decisão de uma justiça rápida e sumária, pois em situações extremas tomam nas mãos um poder de bestas vorazes.

Não queria pensar nisso. Partiria para norte, Oríon morreria como morrem as recordações na memória — extinguir-se-ia a sua imagem num futuro que não havia senão no encontrar vida. Sentia por aquele lugar uma hostil amargura, dali partiria sozinho. Os pequenos potes de barro estavam ainda à volta da lareira tal como os encontrara. Os donos tinham fugido, deviam ser trabalhadores do campo, e os chícharos secos dentro deles figuravam restos de algo perdido, dir-se-iam um símbolo incómodo, não sabia bem de quê, talvez de Oríon, lembrou-se, ou da ideia que era a humanidade, ou de ambos.
Não arrumara tudo na mochila, os figos, tinham ficado de fora bem como as túberas e os espargos bravos apanhados junto da barragem. Pegou na mochila e começou a esvaziá-la em cima da mesa. Primeiro o rádio, um rádio civil. Ligou-o e pô-lo em busca automática. Tirou então a marmita, o cantil, a manta, a lupa com que acendia o lume; a bússola, os carregadores e as duas granadas; um saco de balas, a faca, a caixinha de prata com as duas cápsulas de cianeto e um caderno de capas negras. O livro estava lá. Escolhera-o na biblioteca da casa grande do lugar. Era velho, de folhas amarelecidas pelo tempo. Continuou a tirar as coisas: uma tesoura e um pequeno espelho redondo. Mirou-se nele, mirou-se no fundo dos seus próprios olhos e logo abandonou esse olhar: não queria pensar que existia, tão-só que era, ele mesmo, uma força que o impelia para norte. Numa bolsa interior, estava a carteira de cabedal e não lhe tocou. Não olhava as fotografias, sabia-as lá e ignorava-as, bem assim os documentos militares que o davam como capitão da 10ª divisão autotransportada.

Desligou o rádio inútil, recolheu tudo de novo e meteu desta vez os figos e o resto da comida na mochila, pô-la às costas e, com a arma ao ombro como uma enxada, saiu sem olhar para o portal em frente. Desceu a rua em passos rápidos e diminuiu o andamento quando alcançou a estrada.

De um lado e de outro e diante dele estendia-se a planície como um mar amarelo e ardente. Posso andar devagar e poupar-me, murmurou; se conseguir fazer entre vinte e vinte e cinco quilómetros por dia alcançarei em duas semanas as terras altas do Norte. Tenho ainda umas quatro horas para caminhar e antes do pôr do Sol paro. Ia pensando assim, porém sob estes pensamentos jazia outro, era como uma decisão incómoda que se recusasse a assumir. A lembrança de Oríon estava demasiado perto para que não viesse à superfície, adquirindo os contornos acres do remorso, e o homem abafava-os, pensava logo à noite hei-de vê-lo no céu, imaginar essa eternidade inventada, agora não só para os humanos, também para a imensidade de seres que deixaram de viver e tinham existido, e seria confortável para o espírito continuarem a existir para lá das estrelas.

Oríon com certeza dorme, procurava consolar-se, e quando morrer não morrerá como eu, com raiva do mundo se não encontrar vida. É um cavalo, não deve pensar e eu penso, penso sempre no Norte, penso sempre em encontrar vida aí. Por essa razão o importante é progredir, caminhar disciplinadamente todos os dias: este objectivo deve estar acima de todas as ideias e sentimentos, porque o amor, mesmo o amor por um cavalo, é um sentimento perturbador, e isso embota a lucidez. Basta-me evocar a lembrança dele, olhar Oríon no céu à noite como a imagem de um deus ido e recordar o tempo em que éramos como um só.

Se voltasse os olhos já não veria a povoação, oculta por um ligeiro cômoro. O sol descia à esquerda, para o horizonte, para o mar. Não ando muito mais, o melhor é parar, considerou. Dirigiu-se para umas fragas, avistara-as da estrada com azinheiras de permeio. O lugar era aprazível e a ideia de dormir sob as árvores confortava-o.

Quando chegou, viu um carreiro entre os penedos, descia para o centro deles. Largou a mochila e avançou com a espingarda. Esquisito, notou, como seria bom encontrar alguém na solidão sem um ruído, sem um canto de ave ou o trilar de um grilo. Quase sorriu à descoberta: o caminho ia dar a uma fonte de mergulho. Junto da fonte, estava uma escudela e do solo subia um aroma de poejos esmagados. Enquanto bebia da água, o perfume dos poejos recordava-lhe num breve fulgor a caldeirada de peixe em casa dos pais, era ele novo, talvez da idade de Marco, um soldado introspectivo, com os seus vinte e poucos anos envelhecidos pela guerra. Ouvira-o dizer o tempo não existe, o passado e o futuro são uma mentira e o presente é horroroso demais para que possa prevalecer. Viria nesse mesmo dia a morrer, pouco depois de afirmar nos filmes é um lugar-comum os moribundos beberem água e eu não tenho sede nenhuma, mas isto não é nenhum filme. Tinha encontrado no magro espólio do soldado o caderno de capas pretas que trazia na mochila. Estava cheio de poemas escritos pela mão dele, riscados, emendados. Lia-os e relia-os, e sabia este de cor:

Alfredo, dá-me um cigarro,
dar-te-ei o que tenho:
uma flor vermelha que nasceu
no jardim de minha mãe.
Apanhou-a Antonieta
no tempo dos nossos beijos
e num livro a guardou.
Se me deres um cigarro
dou-te as pétalas da flor
que numa carta me enviou,
o gosto dos seus lábios
nem a flor mos lembrou.

O Sol, um meio disco em brasa, enterrava-se ao fundo, na planície que parecia ainda mais desolada. Começou a despir-se, devia pensar no banho, na água fria, em sensações físicas imediatas. Correu em pequenos círculos, nu, o corpo magro e musculoso. A solidão não existe, é preciso correr, suar, cansar a carne, murmurava, banhar-me e dormir até o céu clarear e um dia vigoroso de novo nascer. Desceu à fonte e demorou-se ali a despejar a água pela cabeça abaixo com a escudela e depois foi deitar-se sobre a manta.

Tirou da mochila o livro e abriu-o na página marcada, comentando em voz alta devo ter lido a Odisseia cedo demais, agora parece-me tão diferente, e embrenhou-se na letra miudinha. Ulisses se não fosse um mito teria sofrido bem menos então do que hoje e fugiria diante de tamanho horror, tornou a falar. Ia na parte de Calipso, e de novo se remeteu ao silêncio, agora habitado pelas palavras de Homero. Quase não enxergava as letras. Não obstante, leu ainda:

"Três, quatro vezes felizes os Dánaos que lá na planície
da grande Tróia morreram, por simples amor aos Átridas!
Bem preferira cumprir o Destino e morrer ali mesmo,
naquele dia em que os Teucros, visando-me lanças aéneas
inumeráveis jogavam, em torno do morto Pelida.
Honras funéreas teria e aos Aqueus minha fama espalharam.
Ora é razão que pereça por modo assim mísero e escuro
."

Guardou o livro. Anoitecera. Mastigava bolotas e bebia água do cantil. Lembrava-se do cavalo. Oríon, chamou como se fosse um nome materno. Fitava os astros inexpressivos, tentando encontrar o trapézio da constelação, e quanto se lhe deparava era uma infinidade confusa de luzeiros que o esmagavam.

Oríon, repetiu. Uma golfada de vergonha subiu-lhe à garganta. Embrulhou-se na manta e tentou adormecer de cabeça vazia. Imaginava a desorientação de Ulisses sem deuses, sozinho e com as cidades arrasadas; que, da casa em Ítaca, nada mais restasse senão pedras desfeitas por um inaudito e gelado sopro de luz. Para onde iria ele? Vaguearia no mar sem fim até morrer?
Pensou amanhã tenho de caminhar para norte, procurar onde haja vida, aquietar o cérebro. No entanto, já não era só o cérebro, era todo ele que protestava. Como o pude abandonar, perguntava-se, como pode alguém deixar um amigo morrer sozinho, embora esse alguém — eu mesmo — pareça ser o último homem? Ninguém me julgaria? É por ninguém me julgar, por ninguém me poder julgar que, na tua vez, cavalo, e na vez dos deuses de Ulisses, me julgo a mim mesmo. Sozinho, poderia ser o maior facínora e, não obstante, enquanto me afastava de ti, sentia estar a cometer uma grande vileza. Vê como o sentimento do remorso é gratuito nesta situação única e, todavia, quanto me corrói. Chamem-lhe consciência, fidelidade, ou chame-lhe eu, pois além de mim não existirá mais ninguém para o fazer.

Ergueu-se e começou a vestir-se à luz das estrelas. Na noite silenciosa e quente, a mochila e a espingarda às costas, meteu-se à estrada e regressou devagar à aldeia. Chegado à casa, deitou-se na enxerga e adormeceu de imediato.

Acordara já o Sol se havia erguido do horizonte. Assomou-se à porta e com um sacho e um cesto desceu a rua e cortou na azinhaga que ia dar à barragem. Tinha visto por lá alguns escalrachos. Ouvia o ranger dos próprios passos na areia do asfalto e, sob esse ruído, o silêncio inanimado do universo tornava-o mais presente. Era como às vezes sucedia quando se punha a escutar nos ouvidos a circulação do sangue, a súbita realidade no rumor de uma corrente obstinada, um fluir contínuo dentro de si mesmo que lhe enchia a cabeça, e então, recordava, não podia parar, deixar de ter um objectivo e de persistir nele sem cansaço: a marcha para norte, para não escutar o sangue correr e alimentar em vão as células. Ficar ali seria aceitar a mudez definitiva, correr à beira do precipício, talvez engolir as cápsulas de cianeto numa solução aparentemente fácil.

Escavava na terra arrancando os escalrachos e lavava-os na água. A vida tem de valer todos os esforços, pensava, e é quando o limite da vida é mais frágil que se torna necessária a obstinação mais dura. É essa a única dignidade ainda permitida, depois de tantos mortos se ter deixado no pó e nas ruínas, a dignidade de morrer a lutar por viver como moralmente desejo. Talvez por isso venha buscar guloseimas para um cavalo moribundo, não as da loja de luxo, afinal ridículas na sua inutilidade, mas estas coisas sem tempo, da fronteira da sobrevivência, as quais ninguém foi capaz de fazer desaparecer.

Entrou na casa grande pela janela arrombada dias antes. A fuga foi calculada, verificava agora. Tudo estava arrumado e coberto de pano cru. À distância, a vossa frustre esperança é patética, murmurou. Nem um de vós restou, nem um herdeiro afastado para vos reclamar o suor (ou o suor de outros pelo vosso), nem sequer um estado organizado para se apropriar destes bens, e vede: os vossos bens são todos meus, como é tudo quanto tenho avistado, todavia a ideia de posse desapareceu, e assim também nada possuo, situação que especialmente a vós muito confundiria. Mas devo ir ao essencial e deixar de enveredar pelas consequências do vosso espírito. Tenho, portanto, de encontrar a garrafeira.

Na sala de jantar retirou os panos de cima dos móveis. Num deles havia whisky. Óptimo! exclamou, nem me lembrava. Deve gostar de whisky. O cavalo do brigadeiro apanhava bebedeiras monumentais de whisky com o próprio dono, bebiam sempre o mesmo blended de doze anos; este, porém, ainda deve ser melhor e Oríon merece-o muito mais do que o brigadeiro, o tipo nem valia a água em que lavava os pés. No entanto, ao contrário dele, não tenciono embebedar-me contigo. Vou beber uma bela garrafa de vinho, levo um destes copos de cristal e asso as túberas na cinza, e com os escalrachos, os figos, os espargos e o whisky teremos uma refeição digna.

Desceu à cave. Estava num caos. Ao fundo, numa divisão escusa, descobriu a garrafeira e um sem-número de garrafas colocadas nos alvéolos com indicação de origem e ano de colheita. Escolheu e retirou duas garrafas iguais. Partiu o gargalo a uma e provou o vinho no copo. Pareceu-lhe espesso e possante e colocando a garrafa fechada no cesto dos escalrachos saiu apressado.
Em casa, avivou o borralho, meteu as túberas na cinza quente junto das brasas, pôs a cozer os espargos e atravessou a rua em direcção ao portal.
— Oríon! — chamou.

E antes mesmo de empurrar a porta ouviu um relincho fraco. Meu velho, hoje pareces um pouco mais animado, falou-lhe. Abriu a janela e o cavalo soergueu a cabeça, mexendo os beiços. Que dizes tu? Está bem, espera um momento, já trato de ti. Olha, trago-te escalrachos e whisky, o vinho é para mim, e os figos, para ambos. Foi com o balde por água fresca e deu-lha pela marmita, amparando-lhe a cabeça. Ainda repetiu mais duas marmitas. Estavas com vontade, comentou, vê lá que amigo sou eu, queria matar-te à sede. Pega um figo. Gostas de figos, enh? Agora espera um minuto, vou sair e volto não tarda. Apareceu pouco depois com as túberas num prato. Os espargos nunca mais fervem, observou, e abrindo o vinho encheu o copo e pôs-se a trincar as túberas e a dar os escalrachos ao cavalo. Adora-los, eu sei, havia alguns lá em baixo na barragem.

Deitou-se de lado, o pescoço do cavalo a servir de travesseiro. Lembras-te do Aires, o negociante a quem te comprei na feira de São João? Não o castre, ouça o que lhe digo, não o castre, repetia-me ele quente do vinho que bebíamos no fim do negócio, fica aí com um garanhão como não haverá outro. Dê-lhe aveia demolhada, fava, milho, bom feno, e se ele entrar por um campo de aveia verde deixe-o comer quanta queira, contanto que o dono da seara o não veja. O cavalo tinha pequenos movimentos da única orelha visível, como se reagisse a certas palavras. Ficaste inteiro e ainda bem, tornava o homem, fizeste-te um garanhão como deve ser. Lembras-te da fabulosa Lilly, a ruça inglesa? Soergueu-se para olhá-lo. Piscava as pestanas brancas, parecia dizer que se lembrava. Ah, como a beijavas, com que delicadeza a namoravas! Tu sabes como é o amor, com certeza tão bem como eu e, estou seguro, melhor do que muitos homens. Rodavas à volta dela, beijava-la nos lugares onde ela parecia mais gostar, nunca tinhas pressa, eras um artista, riu-se, e soerguendo-se para o cavalo: ainda estou a ver Lilly, parecia assombrada por um relâmpago quando a beijavas na flor. Até a tola da dona, miss Miriam, se transtornava ao ver-te em redor de Lilly. God, what a lover! exclamava baixinho, os olhos húmidos e brilhantes, what an amazing lover! Ria um riso de sexo, olhando-te e olhando-me a mim.

Posso confessar-te um segredo? Depois de dares o salto (beijavas sempre Lilly na boca antes de te pores em cima dela), o apontador recolhia-vos à cavalariça, e eu ia com Miss Miriam no carro para uma mata de velhos choupos junto do rio, e era mesmo ali no chão, numa cama de folhas que a possuía. Tal égua, tal dona, uma mulher espantosa, ardia em palavras incompreensíveis. Riu-se alto. Algumas entendia, sim, falava no teu nome, Oríon, gemia I'm Lilly, vê lá tu.

O homem tinha-se soerguido de novo e bebeu um copo de uma só vez. Oríon, exclamou, seria suficiente termos uma companheira para isto poder ser ainda o paraíso; claro, se por acaso divino, coisa que não existe como sabes, uma forte amnésia me varresse o passado. Tu estarias bem, não tens passado, e eu? Ah, não ligues ao que digo, nem sei se o tenho, acho mesmo que não tenho passado tal como tu. Chegado a este ponto sou um ente igual a ti a quem o sangue ainda vai concedendo o dom da vida. Os mortos não existem, apenas existe a vida, e o amor é a vida, todas as éguas que cobriste eram cofres de vida, eram amor, como os amores que tive não eram, foram vida (não sei se és capaz de distinguir esta diferença subtil e apenas humana entre o teu eram e o meu foram). Talvez a nossa correria para norte tivesse como motivo obscuro o amor, o teu, imediato; o meu, o domínio consciente do tempo. E também — claro — a tão viva alegria que é poder amar. Só o amor dignifica o presente. Aqui, porém, tu estarás em desvantagem, só ao homem foi dado o amor de todos os géneros. No entanto, ao lembrar-te no grande cercado a trotares com os teus potros e odaliscas, penso que deverias sentir algo semelhante ao que senti pela vida nos momentos de plenitude.

Sentou-se de pernas cruzadas ao jeito oriental em frente do cavalo. Calara-se e dava-lhe um ou outro figo. Vão sendo horas do whisky, meu velho, comentou depois, quero que durmas bem. Como te disse, não há nada melhor que o sono, mergulhamos nele, esquecemos tudo. O pior é acordarmos muito mais cedo do que desejaríamos.

Quando se acabou de todo o combustível e te fui buscar, continuava, meio país estava arrasado, e participaste comigo nos restos da guerra, combatendo os franco-atiradores e fugindo para norte, até não haver nem amigos nem inimigos, que é onde estamos agora, um lugar sem vida, só com a nossa respiração. Para trás, a tua cauda branca deixou um rasto de silêncio igual a este, cidades tornadas extensas pela destruição, as minhas lágrimas não sei se do vento e da poeira, e o teu galope em direcção ao Norte e à má sina de estares assim aqui. Levantou-lhe um pouco o queixo e deu-lhe um beijo no focinho de veludo. Bebe, é bom, é do país da Lilly, um belo país de loucos, dizem coisas terríveis. E emborcou-lhe a garrafa pela boca abaixo. Oríon não recusou e pousou a cabeça na palha. Aos poucos foi fechando os olhos com o sono que chegava.

A terra ardia. Um vento quente de África levantava a fina areia das ruas para a mudar de sítio e trazer outra mais. Era um bafo de fogo sem voz que ressecava a erva e levava a água da barragem para as nuvens ausentes. A planície gritava sob o céu sem cor e no silêncio soou um estampido, e de novo o calor, o vento sul e o silêncio envolveram a natureza. O eco do tiro foi para longe, para a memória futura do homem que regressava pelo carreiro, a arma descaída para o chão, o passo ligeiramente bambo, a caminho da sua breve casa.

Sairia pouco depois com a mochila e a espingarda, retomando o destino interrompido na noite anterior, em direcção ao Norte.

Publicado por mb em 08:47 AM | Comentários (2)

Vou sair e já volto.

Publicado por mb em 08:33 AM | Comentários (0)