Time to die, diria, ao recordar a música de Vangelis e a pomba branca, um sonho de paz, a fugir das mãos de Roy como das nossas. Mas não é desta associação de sonhos e lembranças, ligados a Blade Runner, que queria falar. Só que me lembrei dela, não por ser esta a última entrada que escrevo no aoeste, mas por muitas vezes termos de renunciar e começarmos tudo de novo, de forma diferente, sem aquelas últimas palavras de Roy que, no contexto desta entrada final e noutros, seriam de um mau gosto patético.
Ao contrário de muitas mortes naturais de blogues, diria que a do aoeste é como um suicídio, tão longe e indefinido me parecia e seria o seu fim, não fossem circunstâncias alheias à minha vontade determiná-lo para este dia. Durou oito meses e meio, contando com o alojamento no Weblogger da Terra/ Brasil. Paz à sua alma, era jovem, e o certo é que as almas, mesmo jovens, não voltam a este mundo para fazerem o que deixaram por fazer.

Os aeroportos são rampas donde partem
grandes naves em busca da humanidade,
rumo ao calor de estar vivo,
naus celestes que demandam o amor ao mundo
e a variada gente, e a cor das cidades,
e possuir o tempo no tempo que pulsa da vida.
Nos olhos vai a claridade dos poemas,
a essência do absoluto impossível,
não uma palavra,
mas todas as que haveriam de existir
para que todas as dissesse
e a unidade delas se tornasse em beleza,
essa ideia que se afasta
e volta sempre como agora.
Apertem os cintos por favor. Não é permitido
o uso de aparelhos electrónicos durante o voo.
Mantenham os telemóveis desligados.
Sorrio.
Não me agarrarão mais do lado de lá do dia-a-dia,
não lhes é comum ouvir
Senhores passageiros voamos a onze mil metros de altitude,
nem é possível perseguirem-me nas auto-estradas do espaço.
Livre e leve, imagino-me, enfim, a perguntar
alguém faz ideia de como seria agora um mergulho colectivo?
Gil Vicente diria ao ouvido de um corretor que fosse engravatado para a City
esta nave é A Barca do Inferno,
e o Diabo não teria o riso escarninho que se ouve no palco,
antes uma gargalhada que reboasse por toda a queda.
Haverá turbulência. Mantenham os cintos apertados, por favor.
Fasten seat belts Fasten seat belts lateja o anúncio.
A turbulência é uma ameaça.
Inquieta-se quem vai no boeing.
Quem gosta de turbulência? Quem gosta de Deus?
Todos amam Deus,
mas há a expressão temer a Deus
e temê-lo não é mais do que falsamente amá-lo
e à sua inquietante turbulência.
Quem ama a agitação de Deus,
os tumultos do céu,
os ventos altíssimos e gelados?
Se o avião tivesse um palco,
se o avião tivesse uma companhia residente,
se o avião escolhesse um dramaturgo lúcido e honesto,
chegaria um actor e clamaria:
"Os aventureiros amam a turbulência e não amam Deus.
São incansáveis cavaleiros na terra."
Os aventureiros apunhalam o código de Hamurabi
e em épocas de glória, o próprio Hamurabi aparece degolado,
e hoje não se está à espera disso. Ninguém pensa
será daqui a cinquentanos, daqui a um século, é tempo demais.
Por isso, aviões sucessivos percorrem o espaço
à velocidade estabelecida, horários digitais,
param nos cemitérios, descarregam mortos
que nem deram conta de em vida terem existido
e assim prevalece a mensalidade vitalícia do andar,
o carro que ficou lá em baixo, tão pequeno
que não se vê nem marca nem cor nem carro
nem as prestações dele nem a razão de comprá-lo.
Em Londres a temperatura é de vinte graus Celsius,
o céu está nublado, mas não chove.
Desejamos aos senhores passageiros uma boa estadia.
Mantenham os cintos apertados, por favor.
A hospedeira de bordo aguarda-me à saída.
Em que pensará a hospedeira de bordo?
A dor amaciou-lhe o rosto e tornou-o belo.
A solidão é um estado sem remédio?
Porque desviou tão rapidamente os olhos dos meus?
Digo: é dolorosa a posse da alma,
quem desejar um corpo tem antes de lhe possuir a alma,
mergulhando a sede do olhar no olhar de ambos.
Será por isso que os olhos tantas vezes se recusam?
Bom dia, muito obrigada, disse à saída.
Não havia razão para nenhum adeus. É preciso ter bom senso,
os aeroportos são uma plataforma electrónica de caravelas voadoras,
são um breve toque de pés na terra ainda atmosférica.
Seria doce a voz dela? Não me lembro.
O olhar procura impaciente o sinal de outra humanidade.
A sede de mundo é inextinguível.
E na distância que vai de Covent Garden a Piccadilly Circus
cabe o mundo todo, e a sede que tenho dele está ali,
toda ali, inteira,
reproduzida em milhares de rostos, em cabelos loiros
que esvoaçam no fim de tarde.
Aonde ides, aonde ides,
ó musas celtas, ó filhas de viquingues?
Onde dormirão os vossos belos corpos,
os vossos seios em descanso respirando,
como será a tepidez do vosso leito,
de que murmúrios nasce a penumbra da vossa intimidade?
Vereis como eu vejo
o fluir exaltante da multidão tão diversa?
Vereis quantos rostos a formam
tão vária que em todos sigo?
E em vós, ninfas de Leicester, também irei?
Não sei para onde me levam.
Para a vida, decerto para o sonho que guardam
e os sustenta e lhes dá vigor em enormes copos de cerveja.
Chamam-lhe pints e não sabia
Um pint é mais de meio litro de afrodisíaco.
Também desconhecia esta sede de viver
que os leva Tamisa abaixo,
e logo deixam o Canal para trás,
rumo às terras do sol que habito
e a outras a que não me aventurei.
Por receio, ou seria a paz necessária a ter filhos?
Se eu tivesse vindo a Londres mais cedo,
não precisaria de andar em busca de nada.
O sol é a minha pátria, mas também o é a bruma,
a bruma de Turner que tão facilmente se apercebe
no Roundhouse, e pelas janelas, nas casas e na rua,
onde a multidão e, entre ela, cada rosto, vai passando.
E Leicester Square é a minha pátria?
Também é, a minha pátria é a humanidade.
Mesmo que dela descreia,
mesmo que dela diga com verdade
a maioria é a sobrevivência irracional do acaso,
animais que sempre fomos e nisso muitos se apuram,
mesmo que o diga e saiba,
são corpos cheios de brilho
e agora é o que mais importa.
Como cintilam de júbilo,
como falam alto e riem,
amemos, bebamos, alegremo-nos,
esgotemos todas as palavras, gritemo-las de orgasmo,
se houvesse double pints estou certo
que a cerveja correria com mais vigor ainda
numa sinfonia exaltantemente luminosa,
a caminho do gran finale,
a explosão que nos abrasa como a deuses.
Mais do que em nenhum lado aqui se entende Hamlet.
"Venham as taças; ouçam-se as fanfarras;
Trombetas e tambores anunciem aos artilheiros
Ordem para troar entre os céus e a terra,
Ecoando a nova
De que El-Rei bebe por Hamlet!"
Apenas nesta rua,
de entre as mil palavras que vozeiam,
apenas nestes breves quarteirões de tão concentrado mundo,
é possível olhar os actores
que desfilam rumo às suas vidas conturbadas,
e chamo:
— Ei, onde ides? Esperai, esperai, bebei.
Nunca desejei tanto como hoje ser um de vós.
Por mais trágico que se torne o destino,
não me importava sê-lo continuadamente em vós,
eternidade sem Deus,
a eternidade calorosamente humana que guardais
e que todas as noites aqui passa, século a século,
e entender a glória e o prazer de Shakespeare
por ter domado o tempo
como espírito da essência que possuiu
e com a qual todos os dias a maldição nos flagela,
maldição de não podermos ser mais que espectadores,
há uma fila ininterrupta de gente
para representações em contínuo
e nenhum de nós pode repetir-se como fazem os actores.
Batemos palmas a chamá-los à boca de cena.
Os actores vivem infinitamente
e nós morremos um pouco mais a cada pano que baixa.
Não sei que acaso genético nos limitou
à condição efémera do espectáculo.
Teólogos e filósofos debruçam-se sobre o assunto,
às vezes com raiva,
às vezes com ódio à imperfeição humana,
e há gente que sofre como eu sofri
a exaltação, a carência de Deus
em poemas de San Juan de la Cruz,
e então inventa-se o delírio,
mas estou vivo, tenho um pint,
a cerveja é fresca
e todos a bebem e falam tão alto
que já vou na viagem de todos
e sou um deles.
Não sei a que tarefa no barco me destinei
ou me destinaram. Talvez o barco seja este pub,
e a tarefa, estar aqui
a beber renovadamente cada noite,
até um dia partirmos em direcção ao Taj Mahal,
e depois, meditando, voltarmos ao Soho
e ao Roundhouse,
e com a luz então acumulada,
as conversas adquiram o peso da sabedoria,
o clarão dos poemas,
a verdade impossível de dizer-se de outro modo,
e possa afirmar:
Não há especulação que valha um pint desta cerveja,
não há poema que mereça uma ninfa destas que vejo
em Piccadilly Circus, sob Eros esvoaçante.
São ninfas de um novo mundo, dividem a rua
com os homeless em sacos cama, cínico progresso.
Afinal em Lisboa, os sem-abrigo cobrem-se com o Público,
lembraria uma turista portuguesa,
lavando as mãos ante vagabundos intoxicados
de álcool e de fome, provavelmente de solidão
e sem dúvida de maldade.
Não estou a vê-los em Portugal
agasalharem-se do frio com o Diário da República.
Ainda que o imaginassem, não o fariam com medo
da polícia os expulsar da casa que não têm
e dos fiscais lhes cobrarem o imposto de habitação,
e assim o meu país europeu mantém-se
na cauda dos índices de conforto.
Eis as notícias que me chegam a Londres
Sobre a capacidade de revolta
nessa parte ocidental da Península Ibérica.
Entretanto aqui há ninfas
que manipulam números e teclados
e falam ao telefone
com mercadores longínquos,
há ninfas por todo o lado e em tudo,
trabalham febrilmente
até chegarem as seis da tarde,
as ruidosas seis da tarde,
louras ninfas celtas e normandas,
filhas de saxões e de viquingues,
ninfas de hoje, do ano dois mil e um,
no ar deixam perfumes esparsos,
ondulam e ondulam
com as suas ancas,
com o seu passo cadenciado
um aroma de seios e flores.
Procuram em segredo
um sátiro que seja doce,
que seja gentil e as compreenda,
e as escute, e as leve com cuidado
para um leito de nuvens,
e lhes murmure
a felicidade tem contornos suavíssimos.
Ó corpos gloriosos que brilhais em redor de Eros,
Piccadilly Circus é um lago de náiades
e alimenta-se da fonte que nasce lá atrás
em Covent Garden.
A montante os sem-abrigo
adormecem no desvão das lojas,
músicos, cuspidores de fogo
e malabaristas agitam-se em volta.
Ainda guardam a altivez de negarem o saco-cama,
bufões da imensa corte
que passa num fluir contínuo.
Nada sabem do futuro
a não ser future,
mas bem melhor conhecerão a palavra tomorrow,
Henrique VIII expulsou-os a chicote
e o chefe da logística de Buckingham Palace
mantém fechadas as despensas reais
e as receitas dos cozinheiros são secretas
e destinam-se apenas a residentes e convidados.
Não sabem por isso o que irão comer
com o dinheiro que ainda não juntaram.
Também não pensam em revolta.
Vivem de esperança,
a esperança tem a cor sombria das ondas,
mas não a grandeza do Mar do Norte.
O Mar do Norte cabe-lhes todo num dedal,
ao contrário do que se lê nos Evangelhos,
o Mar do Norte contém-se cada dia num copo de whisky,
e se Piccadilly Circus é o palco,
o Canal da Mancha é a fronteira,
e o álcool fá-los navegar por sobre as ondas.
De navio nada tem o átrio do hotel
e se tiver é de um titanic que se afunda,
as malas espalhadas no convés
e gente que sobe e desce nos elevadores,
sem o sonho do Canal que já passaram
e em cujos rostos se lê:
«Nós somos outros
e não aqueles que viste e amaste
e brilhavam nas ruas do Soho.»
Talvez o lugar mais solitário da terra
seja este hotel que naufraga.
É preciso ler algo,
é preciso adormecer depressa.
Onde está Londres?
O silêncio tudo gela
e o sangue bate-me nas têmporas.
Estou só com os meus pensamentos desconfortáveis.
A cidade é uma abóbada imensa de vácuo.
Não sei se terão Valium na recepção,
penso basta marcar o nove
e falar:
I need something to sleep
Would you send it to me, please?
Thank you.
O melhor é não pedir nada.
O silêncio é a arma dos sensatos
e também dos manhosos.
Penso a sensatez afinal
não passa de manha bem intencionada,
e nesse sentido devo ser manhoso.
Isto por me lembrar das mulheres
que fingiam beber em copos altos,
o olhar destruído,
a alma assassinada mil vezes em
tantos outros leitos,
até a alma expirar,
restando-lhes um corpo em saldo,
que apodrece
à espera da morte definitiva.
Pode ser uso da recepção do hotel
mandarem esses corpos em lugar de comprimidos
para os clientes se esvaírem
e adormecerem em paz e sem remorsos.
Pode ser que o gerente receba comissão.
Sem dúvida o hotel é
um paquete que se afunda.
Nada tem do que vi ou amo.
No canal dezasseis,
o Benfica ganhou por dois-zero.
Portugueses exultam lá longe.
Exultam com pouco
e Londres inteira parece ter-se evolado.
A alegria da manhã vibrará,
estou certo,
a luz avivará as cores do norte
e os raios de sol serão
cordas de guitarra eléctrica,
e hei-de ir de Yellow Submarine
pela Oxford Street e gritar:
«Escutai, Londres não é nada disso.
Bem poderíeis ficar nas vossas cidades.
O que buscais é igual em toda a parte.»
E logo ecoarem insultos em esperanto,
agredirem-me com o desprezo de quem não vive
e, sabida a aventura no Yellow Submarine,
zangarem-se os amigos que amam andar nos saldos,
nos saldos de fim de ano da Oxford Street,
e então, diplomata, convidá-los
para uma minuciosa visita ao Harrod´s,
e aí fazermos as pazes
com meio pint de Guiness,
tirado pouco a pouco como é da praxe.
Já Nelson olha para sul,
a mirar-se na própria morte.
À uma e trinta da tarde,
lá onde o mundo dos gregos acabava,
nem Héracles lhe valeu.
À uma e trinta da tarde de hoje,
faltam três horas para a batalha,
à uma e trinta da tarde,
o almirante vai morrer de novo
e ver-se a si mesmo
tombar na popa do Victory,
e os turistas nem darão conta,
nem os meus amigos,
nem as pombas se assustarão,
nem os leões de bronze hão-de levantar-se,
e eu estou em Trafalgar Square
e não quero saber das
razões últimas de tal guerra,
senão do rasto que o Corso deixou
nos túmulos violados do meu país,
nas igrejas brancas,
nas mulheres minhas maiores,
factos que lembro por dever de raiva,
essa raiva de ter nascido
para tão grande imperfeição
e não ter mais nada
salvo este grito que me abafa.
Oh, deixai que os navios combatam.
De quanto sangue,
de quantas vidas,
de quantos sonhos degolados é feito
o caminho que em Londres encontrei
e sabia existir,
mas não em toda a sua escura, exaltante extensão.
Logo, ao cair da tarde,
irei de novo banhar-me em Piccadilly Circus.
Provavelmente
beberei ainda mais cerveja do que ontem.
A descoberta da humanidade
é um acto cansativo e doloroso,
e a lucidez não serve de nada,
excepto para morrermos
todos os dias pelos outros.
Riem-se, tudo neles se reduz
a um prato de lentilhas,
e não sei porquê nem como,
nasce-me esta vontade de beleza,
e a beleza só existe no que é humano
e através do olhar humano.
Como a vida é contraditória,
como se pode ter ira e amor
pelo que é mesquinho e alto ao mesmo tempo?
Londres suscita-me
sede, pensamentos febris.
A cerveja é um apelo constante,
ó álacre substância do espírito,
desejar-te é escasso.
Deverias, Londres, ter
um corpo simples de mulher e não tens.
Não és Lisboa que se deixa possuir,
Lisboa é feminina,
tu és uma deusa malévola,
e não queres apenas sexo,
reclamas também a alma,
o fogo da aventura,
o lado violento do desespero.
És a própria densidade,
o espantoso segredo
que generosa mostras
nas salas da National Gallery.
Não me lembro de tão empolgante
destino como este,
e agora a descoberta da profundeza da luz
que sempre te iluminou,
ó espirito da humanidade, minha primeira pátria.
Esperai, esperai:
Ei-lo — um cipreste de Van Gogh.
Onde estou? Flutuo na sala.
Que vejo?
Gauguin vivo,
esses, cuja alma busquei imitando-os em jovem,
no sopé das montanhas do Caramulo.
Éramos quatro na velha casa,
comíamos broa e sardinhas de lata e vinho
e pintávamos,
pintávamos como loucos desesperados,
ainda só podíamos ver o mundo
pelo olhar torturado de Van Gogh,
pela cor liberta de Gauguin,
e a alma deles surge aqui de repente,
sem o Caramulo, sem a velha casa,
sem pão, sem vinho, só comigo.
Onde estarão os outros? E eu, quem era?
De novo a impossibilidade.
Assalta-me não ser o que vejo,
não me diluir no que olho.
Todos, todos estão aqui
e os mais que a memória convoca
a esta imensa, gloriosa luz de salvação
que é poder dizer-se tudo
Não devo, é expressamente proibido
fazer de poemas catálogos de quadros,
não posso enumerar génios,
posso é arrancá-los das vascas de mim,
comungarem os meus olhos com os olhos deles,
comungar a minha experiência com a experiência deles,
comungar a minha vontade com a sua arte possuída.
É excessivo ver em tudo
tudo o que de mim tenho voltado do avesso,
não posso falar, gritar, ninguém me entenderia,
seria detido para averiguações à minha sanidade mental.
Olhai Velázquez, olhai Rubens,
o virar da História em Vernet,
a grandeza de Turner em desejar-se
lado a lado com seu mestre de luz,
e Picasso
a pintar o amigo que queria,
como nós no Caramulo,
ser um pintor famoso.
A National Gallery
deveria ter apenas um quadro
que todos contivesse.
Ninguém até agora
o conseguiu
nem conseguirá,
porque mais uma vez
e sempre
o absoluto que procuramos,
o absoluto não existe.
Não me espanto afinal.
Londres é o cruzamento
dos mais insuspeitos caminhos,
e as estradas que sustentam
o planeta na sua teia passam por aqui.
Parabólicas falam com satélites,
computadores falam com computadores,
telefones chamam outros telefones,
telemóveis discutem com telemóveis,
enquanto a humanidade
que esse fervilhar digital conduz
repousa tranquila e dorme
nas salas da National Gallery,
ou do British Museum.
Nem quero imaginar
como veio o Egipto aqui parar.
O processo de esbulho
prescreveu no tribunal de Haia
e foi arquivado mentalmente
na memória de todos
e na minha.
Se às vezes brota de museus
a indignação do saque,
a indignação só queima quando é próxima,
e eu sou de longe,
e mais do que ser de longe,
vivo um processo de fascínio.
O fascínio é um estado
que não pensa senão em deslumbramento.
Admito, uma única vez,
admito o pragmatismo
que é a arte de transformar
a mentira em verdade,
segundo Peirce,
filósofo de Roma como é óbvio.
Basta-me olhar o ataúde
da sacerdotisa de Amom que foi de Tebas
e andar entre as vitrines,
pensando na sabedoria de tantos séculos
e no dever de testemunhar a vida
como eles o fizeram,
humílimos na consciência de que viviam,
hieraticamente altivos perante nós,
porque pensavam, ó felizes,
ultrapassar a morte
e a morte nunca se ultrapassa.
Mas não sabiam,
é provável que nem duvidassem
tão clara era a alegria
com que pintavam a vida,
a lavoura, as colheitas, a dança,
a confiada relação com os deuses.
Neles me vejo. Há tantos milénios
que o fundamental não se altera.
"E quando a minha mãe voltar, carregada de aves,
E me vir de mãos vazias,
Que lhe vou dizer?
Que não apanhei nenhuma?
Que fui eu a ficar apanhada nas tuas redes?"
De novo em Londres, nesta sabedoria
que herdei, e acumulo. e conto,
e logo à noite cantarei,
ó ninfas celtas, filhas de viquingues e saxões,
musas da vida cintilante com mais de três mil anos
que nestas salas adivinho,
onde o ouro da glória e o gestos simples
ultrapassam não haver a eternidade
em que tanto confiavam,
única diferença que nos distingue,
que distingue a era sombria
em que nasci e que estrangulou
a leveza do essencial
e que se fundamenta em solidão.
Digo: virá o tempo em que filhos combaterão os pais,
virá o tempo em que as crianças e os pássaros serão esmagados,
mas virá o dia em que a subversão do humano não mais é possível,
e das cinzas, como outra Fénix ou como Hórus,
se levante e proclame: — Basta. Chegámos ao limite —
e alguma luz nova, ou paz inteligente, ou vontade extrema
nos obrigue a reaprender a claridade de Tebas.
E não a obsessiva e sufocante atmosfera
de Ramsés II querer eternizar-se,
faraó — louco megalómano
com uma cabeça de granito rosa
que pesa toneladas,
como se o granito evitasse a morte
e não servisse para selar os túmulos,
para confirmar
de uma vez para sempre
que o poder morre,
que o poder então é calcado por milhões de pés,
que o poder, em suma, nada tem a ver
com o desejo de quem pôde
e já não pode,
reduzido a uma sala imensa que abre às dez
e fecha às seis da tarde,
e é apenas um momento captado
que ali se guarda como tesouro
e como símbolo exemplar
de que os reis são mortais,
e o amor de Nefertiti, passageiro.
Digo: também aqui se guarda o coração de Londres,
vê-la há cem anos fervilhar de pressa,
a urgência do ouro a lançar navios e navios ao mar
que regressam ao Tamisa e o sobem, carregados.
Imagino o álcool e o júbilo,
e os gritos e cuidados na descarga,
e a certeza cega de que tudo duraria.
Aqui convivem três tempos num só:
o dos mercadores de olhar coruscante,
o do longínquo passado que trouxeram
e o de hoje que adivinho lá fora,
nas ruas e na relva do parque
de Russel Square, à sombra dos carvalhos,
para além destas paredes sólidas
e do Parténon aos pedaços e em lajes,
como as da luta dos lápidas e dos centauros,
os músculos retesos e o esforço de morte
após a boda, e o farto vinho,
e o apetecido corpo da noiva Hipodamia.
Seria ela a Afrodite no banho que antes vira?
Tudo é possível imaginar,
tudo é possível envolver.
Vivo uma era em que é permitido
até ouvir os Centauros que galopam
em fuga, derrotados, na auto-estrada
de Tessália para Pindo
e olhar as hostes de aqueus:
marcham nos frisos desmontados
por mãos sequiosas,
marcham de encontro a Tróia
que Heitor defende
e Homero olha e diz pela voz de Atena:
"Ares, Ares flagelo dos mortais,
maculado de assassínios, rondador de muralhas,
acaso não poderíamos deixar os troianos
e os aqueus lutarem para vermos
a quem Zeus, o pai, oferecerá a glória?"
Tudo é possível no que escrevo
mesmo Homero e Shakespeare conversarem
cheios de entusiasmo pela humanidade,
sentados no banco corrido
em frente do templo das Nereides,
Shakespeare a querer saber coisas,
imensas coisas quantas Homero quereria,
um perguntando por Helena,
outro pelo príncipe da Dinamarca.
Vede o que seria se ambos trabalhassem numa peça.
Não haveria teatro em Londres que não a representasse.
Seria o colapso do metro e das ruas.
De todo o mundo chegariam peregrinos.
Os hotéis encheriam. A protecção civil
accionaria todos os meios. Os comandantes
mandariam os soldados para casa.
Os aquartelamentos seriam invadidos
por gente de paz que abarrotaria as casernas.
As cabinas dos carros de combate ficariam superlotadas
e muitos ainda fariam companhia aos sem-abrigo,
dormindo nos desvãos cobertos com o Times.
Enquanto a gente passa e nem sabe
que Homero está ali a conversar
com Shakespeare, no banco diante do templo,
e, de costas, sigo com os olhos
os contornos sensuais das três ninfas do mar
que mãos ávidas percorreram há mais de dois mil anos .
Saio para a rua.
No ar vibra a expectativa das seis da tarde.
Nota-se a impaciência prestes a explodir.
Terei de apressar-me.
O metropolitano
lembra os tenebrosos túneis da História,
o bombardeamento de Londres,
as sirenes, a morte — quem recorda?
É escuro e vou nele como se percorresse
os intestinos da cidade.
Estou cansado de tanta pedra,
de tantas salas, lá ao longe brilha o que vi.
Terei de esperar para que tudo se transforme
e me acrescente.
É fatigante a contínua posse da humanidade.
Preciso com urgência
de um pint de cerveja, da cerveja fresca
que passa interminável pela alma,
da cerveja álacre que vozeia mil palavras,
mil palavras que não são das que é uso escreverem-se,
mil palavras das que servem só para falar,
entre umas e outras a diferença é enorme
— sei-o tão bem —, palavras vivas,
cheias de luz, que se escapam dos pubs,
emanam às vezes de belos corpos,
de corpos feitos para o destino último
e principal que é esgotarem-se de amor.
Eis Leicester Square, não preciso de sonhar mais.
Sou um homem fiel a lugares,
como sou fiel (demais) a mim mesmo,
como sou fiel (demais) a sentimentos,
como sou fiel (demais) a ideias e princípios,
mas os pubs, como a Roundhouse, nasceram
exactamente para nos esquecermos de tudo isso
e principalmente de nós mesmos,
do lixo que trazemos
e das ideias e princípios e sentimentos que nos amarram.
Sinto-me bem e leve no meio de tantos sátiros,
de tantas ninfas, aqui conflui a vida
de agora e do passado, é só uma e sem hiatos,
daí que veja Ana Bolena misturada connosco,
a beber e a vozear como os outros.
Só um discurso de Churchill na rádio nos calaria,
hipótese que se admite possa suceder,
no Roundhouse nada há que não suceda.
Mais do que um confessou ter visto Eliot
no passeio oposto, enquanto uma celta afirmou
ter surpreendido Robin Wood a assaltar o
Barclay's Bank com a namorada. Jurou-mo
entre gargalhadas cristalinas de ninfa.
Ó tentação,
o pint de cerveja era uma ponte ideal para ambos,
ou o restaurante tailandês onde irei jantar
por recomendação de amigos, o Sri Siam.
Os amigos são óptimos para dar estas indicações.
Telefonei de manhã do hotel, que continuava
o naufrágio lamentável, telefonei a reservar mesa,
e a ninfa tem uns dentes tão brancos que me dói
olhá-los na boca húmida, aberta em gargalhadas,
ó fauno da romana Ibéria, ó selvagem capro do Gerês,
que misturada e primitiva humanidade é a nossa?
Sob o meu fato e o vestido negro dela
ocultam-se dois ímans duros que se esperam.
Será que lhe pergunto:
would you like to have dinner with me?
The restaurant isn´t very far.
Não, não quero complicações sentimentais.
Não é isso que Londres me exige, nem a gente que aqui passa.
Os estados de graça requerem castidade senão fenecem.
Não se pode tocar no sonho, as visões oníricas do fascínio
não permitem mais do que uma participação entusiasta,
o seu entendimento, a solidariedade que embebeda.
E esse é outro amor, e mais alto, e mais vasto,
tudo se sabe que irá ser possuído, e sabê-lo
é já um orgasmo quase místico que me eleva.
Não quero pensar no avião que partirá.
Amanhã, cedo, serei um turista bem comportado.
Irei ver a abadia de Westminster, saber
se Bandeira e Sena ainda por ali passeiam,
já lá vão quarenta e dois anos,
era um dia de Outubro como este,
e irei, claro, olhar o Big Ben, o Big Ben é
a torre Eiffel, ou a de Pisa, ou o Corcovado,
ponham-me o carimbo BIG BEN no passaporte,
o carimbo, digo-vos, vale mais que este poema enorme,
é um selo que prova aquilo que não vemos,
e apesar disso tentarei ligar o Buckingham Palace
à ideia que tenho de que não podemos estar aqui
a beber desta maneira sem que haja um rei,
e meditarei diante das Casas do Parlamento,
tentando perceber a diferença entre Lordes e Comuns
que entretanto até ver não é nenhuma.
Penso que os Comuns poderiam ficar
na câmara alta, e os Lordes, na câmara baixa,
pelo menos à experiência, digo-o de boa fé,
pois na esplanada das Casas do Parlamento
que se debruça para o Tamisa
ambos os lados exercitam o convívio e a democracia
à volta de bules de porcelana que eram da China,
e de chá aromático que foi das Índias.
O Roundhouse, porém, alheia-se destes assuntos.
O Roundhouse é o centro do mundo.
Num pint de cerveja pode conter-se o universo,
e de Covent Garden para Picadilly Circus
passa por Leicester Square uma torrente de humanidade,
da humanidade que eu sabia,
da humanidade que atarefadamente buscava,
ninfas, sátiros, bufões, músicos alegram-na,
e os sem-abrigo preparam-se para dormir nos sacos-cama.
Não é possível ser-se pessimista.
Tudo aqui é permitido imaginar,
menos horários e aeroportos.
Pela ponte de Westminster,
Boadicea, a rainha, lança contra os romanos
o seu carro de cavalos poderosos,
Nero estremece,
os Lordes assustam-se na esplanada,
Shakespeare olha,
Auden entusiasma-se,
Boadicea é envenenada.
É uma viagem sem termo.
Não sei se de Londres algum dia partirei.
© Nuno Dempster
Esqueci-me de comemorar-te, ó poesia,
a ti que tanto me deves enquanto és minha.
Festeja-me agora tu, uma garrafa de Syrah
te basta para saldares as velhas dívidas
que tens comigo, ano a ano aumentadas.
Porque vale mais o sol numa garrafa
que fingir-te num passeio pelas vinhas.
© Nuno Dempster
Ninguém será capaz de parar esta guerra, não há senso, há cegueira, estão cegos todos os fundamentalistas que a movem, e haverá sempre quem, por tacanhez de espírito ou, dando o benefício da dúvida, por boa fé da inexperiência, defenda ou ataque unilateralmente as partes que já não são partes, são a generalização de um confronto comandado por animais de olhos gelados. A oriente e a ocidente. Os mortos gritam. Quem os ouve?
No sábado tinha uma extensa volta comentada pelos blogues, acabada de escrever. Sem contar com o tempo dessa volta, que a faço amiúde, demorou-me mais de duas horas a organizá-la, era uma espécie de remissão pelo silêncio a que, por motivos vários, votei o blogue. Um clique imprevidente mandou-me a entrada não sei para onde, desapareceu, transformada não sei em quê, tenho de perguntar ao Rui Gil, que me parece entendido nestas coisas de ciência tecnológica, em que se terá transformado o que escrevi. Não se transformou, foi-se? Será esse o verdadeiro nada, a fixação enfim de uma abstracção inominável? Um morto ainda tem o que da vida lhe restou, carne, ossos, etc. que a terra de algum modo transformará. Mas uma entrada?
Seiscentos quilómetros andados, galgar constantemente a distância que corre debaixo do carro como outrora o Sol, antes de Copérnico, e não o contrário, o carro a voar sobre o asfalto. No leitor de CDs, Camões, as canções, quanto mais se ouvem mais belas são, e as terras que passamos quase sem as ver, num estado de semiconsciência, carregadas de História que só agora lembro. E, num lugar desses, entre trevos e erva, de repente um único miosótis silvestre. O espanto de o ver anunciar sozinho e tão pequeno os dias da criação que se aproximam.
Ontem fiz gazeta ao aoeste, manter um blogue individual não é pêra doce, mas sempre se arranja algo para dizer, que não deste mundo imerso num novo tipo de guerra, da qual os inocentes são os devedores, como é hábito na espécie, e os responsáveis pela guerra (todos eles, directos e indirectos), os inimputáveis credores, como também é hábito.
***
Hoje, ao comprar um prenda que me pediram para comprar, a dona, devia ser a dona, já de certa idade, perguntou se eu queria um autocolante de felicidades no embrulho, a prender o laçarote. Respondi-lhe que pusesse, e ela retorqiu:
- Sabe, é bom a gente desejar felicidade às pessoas.
Havia um monte de questões que me ocorreu pôr-lhe sobre a felicidade, no entanto fiquei-me pelo silêncio, a olhar o autocolante de mau gosto, enquanto me fazia o troco. É que felicidade é uma palavra pessoalíssima, por isso, impronunciável e, mais ainda, anticolante.
Hoje, numa aldeia da beira-mar com uma agricultora viúva, ainda nova, de olhos inteligentes:
— Então alcatroaram-lhe a rua?
— E já não era sem tempo. É a rua mais importante da freguesia, que pensa?
— Mais importante?
Era uma rua igual a todas, para aqueles lados tudo é parecido, e as ruas, uma espécie de labirinto onde sempre me perco.
— Sim, mais importante. Por aqui passam novos e velhos, ricos e pobres, vêm de toda a freguesia.
— Como assim?
— Não vê além o cemitério? — perguntou, apontando-o. — É por aqui que vão para lá.
A mentira instituída como meio de enganar os eleitores desta vez não resultou. Os povos desejam a paz. Aznar que queria sair a bem, saiu a mal, humilhado, sob apupos de aldrabão. Bem lhe valeu Bush vir dizer na TVE que era preciso muito tempo para averiguar a responsabilidade do atentado. O muito tempo era três dias, até ao fechar das urnas. Outro aldrabão. Além de psicopata. Desta vez, católico. Diz que foi Deus que o salvou do alcoolismo para combater o que ele mesmo é.
Como leio Luís Carmelo sempre com gosto, mesmo que não concorde com algumas posições por as achar menos universais do que esperava, e porque nesta entrada escreve sobre quem, como eu, apenas se referiu ao atentado de Madrid sem referir um outro em Israel, ainda que no meu caso as ligações afectivas e profissionais com Madrid possam justificar essa exclusividade, parece-me oportuno demarcar o meu entendimento de terrorismo, que é só um. Terrorismo. Matar por razões políticas, religiosas ou económicas e ainda por outras que porventura falhe, além da prática de outros males menores do que a morte, que é o maior de todos, isso é o terrorismo. Tanto me faz que seja a Eta, como as máfias (de que a Eta para mim faz parte), como os palestinos suicidas, como os fundamentalistas de qualquer religião, sejam muçulmanos, cristãos, judeus ou outros que não lembre, a nivel de grupo ou de estados. A morte é igual para todos os seres humanos. Uma criança é igual em todo o planeta, uma mulher é igual em todo planeta, um homem que morre na defesa do seu país, qualquer que ele seja, é igual em todo o planeta. Terroristas são, pois, os que matam e mandam matar inocentes, indiscriminadamente ou nem tanto (dizem). Escuso de me extremar a nomeá-los. Todos sabemos quem são.
no entardecer, o fim de um longo hiato de que nunca houve início, mesmo quando os deuses mais jovens sofriam pelo que julgavam ser o amor, e muitas vezes era o sol que lhes abrasava o voo, e tantas só a sombra da solidão dos seus corpos tensos. Nunca se imaginou que a Sabedoria mais tarde viesse e os vingasse, dispensando a loucura ardente de Afrodite e nomeando, em seu lugar, Psique, a deusa que, por amor, se libertou da paixão.
Encontrei-te de súbito. Não sabia
para onde era Moimenta, e tão perdido andava
que surgiu uma antiga amada minha
que eu nunca tinha amado nem sequer visto,
e deixei-a ficar nessa ilusão.
Apareces mais logo? — perguntou. — Apareço.
Não apareci, claro, e ela voltou.
Foi quando os camiões
partiram para a louca correria
e a estrada se tornou de lama escura.
Era como fugir da guerra,
era uma retirada convulsa e não as provas
made in USA que via na tevê.
Encontrei-te de súbito, estavas na mesma,
o mesmo ás do volante no estrangeiro
parado em Portugal,
os mesmos fatos cinza,
o mesmo vendedor de medicamentos
que amava uma hospedeira da Ibéria.
Tinhas o teu mercedes encostado,
o teu velho mercedes vermelho era verde
e arranjavas não sei quê.
Sorriste ao ver-me ali o teu sorriso alegre,
e eu estava feliz não sei se por te ver,
se por vencer a tua morte
na estrada para Burgos com o mercedes velho.
© Nuno Dempster
¡Madrid, Madrid!, ¡qué bien tu nombre suena,
rompeolas de todas las Españas!
La tierra se desgarra, el cielo truena,
tú sonries con plomo en las entrañas.
Antonio Machado, 1936, Poesías Completas.
Os poucos que a pisaram
não podem descrevê-la com metáforas.
E eu olho-a
com o mesmo espanto do primeiro homem.
Felipe Benítez Reyes, trad. de Nuno Dempster
O país dissolve-se, vendido a estrangeiros, trespassado de auto-estradas por onde chega a comida em filas imensas de camiões TIR. É o que alguns querem. Os mesmos de 1580. E talvez haja quem, ao ler isto, julgue que sou um pessimista fora do prazo de validade e - muitíssimo pior - que os países não morrem.
Não confundas desejo com paixão:
desejo vale mais, pois nunca morre
e busca sob as luas tormentosas,
com olhares de lobo que não dorme,
o frágil e fugaz fulgor dos raios.
Felipe Benítez Reyes, tradução de Nuno Dempster
Se deitarem fogo de artifício por este dia, ou amanhã por outro dia qualquer, ficaremos mais pobres. Haverá trezentas e sessenta e cinco noites às escuras nos anos bissextos como este.
5
Eu, porém, aviso-vos
Que vivo pela última vez.
Nem de andorinha, nem de plátano,
Nem de canavial, nem de estrela,
Nem de água de uma fonte,
Nem de repicar dos sinos —
Virei perturbar as pessoas
E os sonhos alheios visitar
Com um gemido insaciado.
1940
Anna Akmhatova, Poemas, Tradução
de Joaquim Manuel Magalhães
e Vadim Demitriev, Edições Cotovia, 1992.
Ver o sol espelhar-se nos vidros dos prédios
e, olhando para o alto onde habitava Deus,
ver as nuvens tomar a mesma cor poente;
com os olhos seguir as linhas rectas
que a humanidade traça para as urbes
e as cores que ressaltam dos anúncios;
crer que desta paisagem a poesia
há-de surgir sem que um rosto se assome
ao limiar da vida que não se lamenta;
viver na indigência das ideias abstractas
como um sábio voltado para a sua mesa
em tristes pensamentos de uma carreira inútil;
e por sobre tudo isto — saber que o sol nos vidros
não é neles que bate mas nos olhos
que guardam a saudade de uma fila de árvores
como horizonte limpo outrora desejado
do homem que se retira para um desvão
no meio de mendigos e vicioso esterco
e de fêmeas esplêndidas a quem é proibido
indagar sobre assuntos da alma
que o homem entregou há muito,
não porque vá morrer — receberá a morte
com um silêncio fundo — mas por amar a vida
que se vê perfilar no horizonte, as árvores.
© Nuno Dempster
Sem desfazer nos outros, como diz a gente que vive entre fragas e montes, rodeando ao longe esta cidade, sem desfazer nos outros, portanto, um lugar aonde me consola ir. Nele, hoje, melhor, ontem, três géneros de seres, dos muitos que fazem a humanidade não ser nenhuma abstracção romântica, ainda que dois deles salvem de ser maior a minha descrença na generalidade.
A propósito desta entrada e neste comentário um anónimo escreveu:
A revista LER considerou o Pipi um dos três melhores livros de ficção portuguesa editados no ano passado. O crítico do DN deu 5 estrelas ao livro. Se calha, tu és o único iluminado que acha que aquilo é mau...
Sendo anónimo, não sei porque terá vindo aqui, se é um canceroso de iliteracia, se pensa que os outros são parvos, se veio abrir a cabeça para mostrar o que lá tem, as hipóteses são várias e todas as possíveis.
Atente-se no que foi buscar como exemplos, além do mais como se fosse preciso exemplos e como se não se soubesse para que (também) serve aquilo com que se compram os melões. Iria para o arquivo disparates se eu fosse ingénuo, se comesse gato por lebre, a epígrafe do aoeste. Assim fica só a vermelho. Para se distinguir do resto.
que estava para chamar a atenção para esta inquietante fotografia do Nelson Aires que habita o Vermelhar, e sempre o fui adiando. Por mim, chamar-lhe-ia A Desconstrução do Humano, devido à violenta negação do divino que parecem simbolizar o homem nu ao fundo, na penumbra, o pénis recentemente erecto, a freira anã empunhando um crucifixo e o seu rosto absurdo, sem a mínimo traço de espiritualidade, vinda do lençol amarrotado no que parece ser uma chaise-longue, encravada num canto em âgulo agudo.

Todos corriam em carros e motos para ver quem chegava primeiro lá acima. Lembro-me de uns motards americanos que pareciam ressuscitados da geração beat, as mãos muita acima das cabeças a manobrarem o guiador lá no alto, de uns italianos também nas suas Aprilia e Gilera, dos carros, toda a gente frenética e ansiosa, já as bétulas e os pinheiros tinha desaparecido há muito.
Recordo sobretudo, passada esta viagem de quinze mil quilómetros em carro, o silêncio despojado que se sente nesta foto. Toda aquela região é uma das mais belas em que já estive, exactamente por não ser mais do que o planeta sem nada, senão ele e a tundra, o ar muito leve e o céu.
A M.me Charlotte tem todo o direito - quem lho tiraria? - de gostar menos de Eurípedes do que de Ésquilo e Sófocles, mas ao escrevê-lo devia explicar o que explicou ao Daniel, já que não lhe custou fazê-lo nestes comentários. Os seus juízos e observações, escritos a correr ou num jeito mundano que conheço bem demais, levam a interpretações que não lhe agradam, e quanto a isso só de si mesma pode queixar-se.
Não sei se o meu entendimento da literatura é diferente do seu. O gosto literário e a apreciação crítica parece-me que sim. Pelo que vi, já confundiu literatura com o que nunca o foi. Tão entusiasmada andava, era vê-la feliz naquela girândola da obscena revelação à betesga nacional. Ou talvez não confundisse literatura, talvez não fossem letras, talvez fossem números, talvez tivesse sido apenas eficiência e olho para o negócio. Ou, pelo contrário, talvez estivesse a pensar que o fulano pudesse ser, em prosa, o nosso Marcial, que me perdoe o latino que tem mais do que só epigramas lascivos, e estes são uma manifestação clara da sua arte. Esta hipótese quero descartá-la e descarto-a, era quase chamar-lhe intimamente tola, o que de todo nunca me pareceu.
Voltando ao assunto: gosto especialmente de Eurípedes, é verdade, sem gostar menos de Ésquilo e de Sófocles, mas diversamente, e os motivos são a razão por, mais do que Ésquilo e Sófocles, Eurípedes ser origem da tragédia latina, directa e indirectamente a do Renascimento e do próprio drama moderno, pela inovação que trouxe, pela grandeza do seu discurso (que qualifica de barroco, nada tendo das suas futuras circunvoluções), pelo afundar-se na alma das personagens, pela humanização das suas tragédias, pela democratização da cena, pelo lugar dado às personagens femininas (que Aristófanes, conservador até à medula, parodiou na comédia Mulheres Que Celebram as Tesmofórias) e por subalternizar a importância de deuses e heróis.
Foi esta última posição que o tornou suspeito de ateísmo, mais interessado que era no sofrimento da condição humana, cujas contradições levou até ao paroxismo, ao mesmo tempo que libertava o homem dos deuses, responsabilizando-o pelo seu destino. Pagou a fidelidade ao seu pensamento com o exílio, como tantos outros na história da literatura. E ainda que se goste das suas obras, sucede a alguns gostarem menos por ter sido o que foi, uma voz incómoda da antiguidade que ainda hoje impacienta.
De resto, como exemplo de sinal político contrário ao seu, M.me Charlotte, estou a lembrar-me de Erza Pound, cuja obra repele muita gente (que não a mim), pelos pesados equívocos do homem que escreveu uma das grandes poesias do séc. XX.
Não é despropositado imaginarem-se pruridos destes em apreciações de arte, nem é incomum havê-las assim por mera cegueira ou pose, pose que a sua observação sobre Eurípedes me pareceu.
Exactamente por se ter tornado numa sentença que não foi fundamentada, como devem ser todas as sentenças. Ainda que o blogue seja seu, também é público, e daí estar-se sujeito a críticas, e ainda mais o seu blogue que anda pelo cume dos números e por cada número ser uma pessoa que sai assim dele mal informada, tomando o seu gostar menos por valer menos.
A Bomba Inteligente diz que, dos poetas trágicos gregos, o que menos gosta é de Eurípedes. Certamente não fundamenta esse juízo em razões estéticas, que influenciaram todo o teatro subsquente, nem no realismo trágicamente humano das suas obras inovadoras, nomeadamente na que cita, As Troianas, em que o ponto alto me parece ser a dança de Cassandra, de que aqui dou parte da fala. Diz que não gosta, mas não diz porquê. Já Aristófanes, conservador, o tentara ridicularizar com uma comédia por motivos políticos. Vão ver que é por isso, por Eurípedes contestar os deuses e a sociedade na altura, por, com a sua atitude independente, se ter tornado no que hoje se chama um progressista. Já não é a primeira vez que lhe leio coisas destas escritas de ânimo leve, diria mesmo leviano, ainda que neste assunto não tenha ido mais longe que o seu gosto que não é gosto, mas antipatia por quem represente a libertação de pensamento.
© Nuno Dempster
Eccomi nel chiarore di un vecchio aprile,
a confessarmi, inginocchiato,
fino in fondo, fino a morire.
Aqui estou, à luz de um velho Abril,
a confessar-me, de joelhos,
a confessar tudo, até à morte.
Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo